O Brasil investe uma proporção maior de seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação do que a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas a comparação em termos absolutos por aluno revela um abismo financeiro gritante. Em 2023, o país destinou 4,5% do PIB para o setor, superando a média de 4% da OCDE. Contudo, o gasto por estudante no Brasil somou US$ 4.133, enquanto nos países ricos da organização o valor atingiu US$ 13.601, segundo estudo divulgado pela OCDE.
Essa discrepância aponta para desafios estruturais no financiamento da educação brasileira. Apesar de um compromisso percentual relevante em relação à riqueza nacional, a capacidade de converter esse investimento em recursos diretos para cada aluno é limitada. O estudo, parte do compêndio anual "Education at a Glance 2026", que inclui dados de 20 sistemas educacionais, evidencia que o Brasil, mesmo não sendo membro formal da OCDE, participa do programa Indicadores de Sistemas Educacionais (INES), permitindo comparações internacionais.
O Abismo em Números
O estudo detalha que o gasto por aluno varia consideravelmente conforme o nível de ensino. No ensino fundamental, o Brasil gastou US$ 4.064 por estudante em 2023, contra uma média de US$ 12.893 na OCDE. No ensino médio, a diferença se mantém: US$ 4.390 no Brasil frente a US$ 14.291 na média dos países ricos. Essa disparidade se reflete em países como Luxemburgo, que lidera o ranking com um gasto de US$ 32.289 por estudante, seguido por Suíça, Islândia e Noruega, todos com valores significativamente superiores aos brasileiros.
A distribuição dos gastos dentro das instituições brasileiras também merece atenção. Cerca de 75% dos gastos atuais em instituições de ensino fundamental são direcionados à remuneração de funcionários, um percentual próximo à média de 79% da OCDE. O restante é alocado para outras despesas correntes. A análise sugere que, embora a proporção de recursos destinada a pessoal seja similar, o valor absoluto disponível para cada aluno no Brasil é drasticamente menor, limitando a capacidade de investimento em infraestrutura, materiais didáticos, tecnologia e programas de apoio.
A Crise de Professores e Qualificação
O relatório deste ano da OCDE também lança luz sobre a escassez de professores, um desafio global que afeta a qualidade do ensino. Em muitos sistemas educacionais, a força de trabalho docente está envelhecendo, o que pressiona o recrutamento e a retenção de profissionais qualificados. No Brasil, 9% dos professores do ensino fundamental e médio em instituições públicas não possuíam qualificação completa em 2024/25, um índice próximo à média da OCDE (9,1%). No entanto, a escassez se concentra em disciplinas específicas, como matemática e ciências, e em regiões rurais ou desfavorecidas.
Para mitigar essa escassez, o Brasil tem recorrido a professores de "segunda carreira" em maior proporção do que a média da OCDE. Enquanto 8,4% dos professores do ensino fundamental II na OCDE vieram de outras profissões, no Brasil esse número sobe para 11,5%. Essa estratégia, embora ajude a diversificar o corpo docente, pode não resolver os problemas de remuneração e satisfação, já que apenas 22,3% dos professores brasileiros se declaram satisfeitos com seus salários, contra uma média de 38,7% na OCDE.
Implicações para o Futuro da Educação
A baixa satisfação com salários e as condições de trabalho podem explicar a alta rotatividade de professores no Brasil. Em 2022, 10,3% dos professores plenamente qualificados deixaram a profissão, comparado a uma média de 6,4% na OCDE. Essa rotatividade, aliada à escassez de profissionais qualificados, impacta diretamente a qualidade do ensino oferecido, especialmente em disciplinas críticas e regiões com menos recursos. A tendência de queda no número de crianças no Brasil nas próximas décadas pode aliviar a pressão por novas contratações, mas não resolve a necessidade de valorização e qualificação dos docentes atuais.
A comparação com a OCDE reforça a urgência de políticas públicas que não apenas aumentem o percentual do PIB destinado à educação, mas que também otimizem a alocação desses recursos. A tradução do investimento percentual em um gasto absoluto por aluno significativamente maior é fundamental para garantir um ensino de qualidade equitativo em todo o país. Sem isso, o abismo financeiro continuará a limitar o potencial de desenvolvimento dos estudantes brasileiros.
Perguntas em Aberto e Perspectivas
A análise comparativa levanta questões cruciais sobre a eficiência e a equidade na distribuição de recursos educacionais no Brasil. Como o país pode otimizar o gasto por aluno para se aproximar dos padrões internacionais, mesmo com limitações orçamentárias? Quais políticas podem ser implementadas para atrair e reter professores qualificados, especialmente nas áreas de maior carência?
A OCDE aponta que a escassez de professores é agravada por fatores demográficos e decisões políticas sobre tamanho de turmas e carga horária. No Brasil, a queda prevista no número de crianças pode ser uma oportunidade para reestruturar o sistema, focando na qualidade e na valorização profissional, em vez de apenas na quantidade de vagas. A forma como essas políticas serão conduzidas definirá o futuro da educação no país.
O estudo da OCDE oferece um retrato contundente dos desafios enfrentados pelo Brasil na educação. A disparidade no gasto por aluno, mesmo com um investimento percentual do PIB superior à média de países ricos, sinaliza a necessidade de um olhar crítico sobre a eficiência e a priorização dos recursos no setor educacional brasileiro. A jornada para reduzir esse abismo é longa e complexa, exigindo ações coordenadas e estratégicas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





