O lançamento da política Nova Indústria Brasil (NIB) marcou um ponto de virada significativo nos investimentos em inovação no país, com recursos já ultrapassando R$ 57 bilhões. Esses fundos estão direcionados a projetos cruciais como digitalização, inteligência artificial, semicondutores e transição energética. Mais do que um mero aumento de capital, essa iniciativa sinaliza uma mudança estrutural na estratégia brasileira para a competitividade tecnológica, alinhando-se a uma tendência global de aceleração impulsionada por tecnologias emergentes.
A consultoria PwC estima que a Inteligência Artificial sozinha pode adicionar US$ 15,7 trilhões à economia mundial até 2030. Paralelamente, o Fórum Econômico Mundial projeta que novas tecnologias transformarão profundamente os modelos produtivos, exigindo das empresas maior capacidade de adaptação e inovação estruturada. Programas como o Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) elevam o patamar, conectando competitividade industrial, descarbonização e desenvolvimento tecnológico em uma única lógica regulatória. Apenas em dezembro de 2025, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) anunciou R$ 210 milhões em projetos para descarbonização e digitalização da cadeia automotiva.
A Era da Inovação Estruturada
O cenário atual de abundância de recursos, incentivos e instrumentos de apoio é sem precedentes na história recente do Brasil. No entanto, a publicação TIInside alerta para uma questão frequentemente negligenciada: a simples disponibilidade de recursos não garante a capacidade de inovar. Décadas de acompanhamento de empresas em diversos setores revelam que o fracasso de projetos de inovação raramente se deve à falta de tecnologia ou criatividade. O cerne do problema reside na ausência de método, governança e, crucialmente, capacidade de execução. É nesse contexto que a norma ISO 56001 emerge como um divisor de águas, transformando a inovação de uma aspiração corporativa em um sistema de gestão auditável, com critérios objetivos, responsabilidades claras e indicadores de desempenho.
Fim do Improviso, Início do Método
Por muito tempo, a inovação foi tratada como um fenômeno dependente de indivíduos excepcionais, lideranças visionárias ou oportunidades de mercado isoladas – a chamada "inovação heroica". Embora esse modelo tenha gerado sucessos pontuais, também resultou em desperdício de recursos, projetos abandonados e dificuldade de replicação em larga escala. A transição para um modelo baseado em sistemas, em vez de "heróis", é fundamental. Essa mudança se manifesta na relação entre empresas e órgãos de fomento. Executivos muitas vezes focam na elaboração do projeto ou na tecnologia, mas a experiência demonstra que o fator decisivo para a obtenção de recursos é a capacidade de comprovar a estrutura organizacional para executar a proposta.
Governança e Execução como Chave para o Fomento
Ao analisar um projeto, órgãos como a FINEP buscam não apenas a inovação tecnológica, mas também evidências de governança robusta, gestão de riscos, maturidade organizacional e potencial de execução. A ISO 56001 atende a essa demanda ao estabelecer processos estruturados para identificação de oportunidades, validação de hipóteses, desenvolvimento de soluções, gestão de propriedade intelectual e avaliação de desempenho. Isso transforma a discussão sobre investimentos de promessas para um diálogo baseado em evidências concretas de maturidade. O mesmo princípio se aplica aos incentivos fiscais, onde a dificuldade reside em comprovar que os investimentos correspondem a atividades de P&D. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) aponta a dificuldade em demonstrar adequadamente os avanços tecnológicos e o caráter inovador das atividades como uma inconsistência frequente na Lei do Bem.
O Caminho para a Inovação Sustentável
O Brasil está em um momento privilegiado para consolidar sua competitividade tecnológica, munido de recursos e políticas de fomento. A verdadeira inovação, contudo, não se resume a investimentos vultosos ou a ideias brilhantes. Ela se constrói sobre um alicerce de processos claros, governança sólida e uma execução impecável. A adoção de padrões como a ISO 56001 não é apenas uma formalidade, mas um indicativo de que o país está amadurecendo sua abordagem, transitando da "inovação improvisada" para um modelo sustentável e replicável. O desafio agora é garantir que as organizações brasileiras não apenas acessem os recursos, mas desenvolvam a capacidade gerencial e sistêmica para transformá-los em resultados tangíveis e duradouros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





