O governo brasileiro tenta, mais uma vez, destravar as negociações comerciais com os Estados Unidos. Em uma reunião virtual agendada para esta segunda-feira, os ministros Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria e Comércio) e Mauro Vieira (Relações Exteriores) se encontram com Jamieson Greer, o representante comercial americano, para discutir o chamado "tarifaço" que Washington impôs a produtos brasileiros.
A conversa acontece após a suspensão do diálogo em julho, quando os EUA oficializaram a aplicação de tarifas de 25% e 12,5% sobre uma vasta gama de exportações. A leitura em Brasília, admitida pelo próprio ministro Elias Rosa, é de que será um "diálogo difícil". A análise aqui é que, mais do que uma reversão completa, o Brasil joga por uma vitória modesta: ampliar a lista de exceções e mitigar o dano.
Um diálogo sob pressão
Os números mostram o tamanho do desafio. Segundo levantamento do governo, quase metade da pauta exportadora para os EUA (47,3%) está sujeita às novas sobretaxas, afetando diretamente 8,6 mil empresas brasileiras. O impacto econômico é a principal alavanca de pressão sobre o Planalto para encontrar uma solução.
A estratégia brasileira parece ser a da redução de danos. O objetivo, a princípio, é conseguir incluir mais setores na lista de produtos isentos, que hoje já contempla itens estratégicos como café, carne bovina, petróleo cru, aeronaves e celulose. A postura sugere que o governo brasileiro entra na negociação em uma posição reativa, buscando limitar perdas em vez de ditar os termos do acordo.
A sombra da reciprocidade
A iniciativa para a reunião partiu de uma ligação direta entre o presidente Lula e seu contraparte americano, Donald Trump. O movimento indica uma tentativa de usar o capital político do mais alto nível para quebrar um impasse que se arrasta há mais de um ano em esferas técnicas. É a diplomacia presidencial entrando em campo onde a burocracia falhou.
Chama a atenção, contudo, uma carta que o Brasil decidiu não levar à mesa: a retaliação. Embora o governo já tenha iniciado o processo para aplicar a Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos, o tema foi explicitamente retirado da pauta do encontro. A decisão pode ser interpretada como um gesto de boa vontade para facilitar o diálogo, mas também arrisca ser lida em Washington como um sinal de que o Brasil não tem apetite para uma escalada na disputa comercial.
A reunião desta segunda-feira servirá como um termômetro para o futuro das relações comerciais entre os dois países. O resultado mostrará se a diplomacia pessoal é capaz de superar interesses protecionistas consolidados ou se o Brasil será forçado a escolher entre a aceitação das tarifas e uma guerra comercial para a qual parece pouco preparado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





