A Europa avança em seu ambicioso plano de revitalizar a malha ferroviária com a construção do Túnel de Base do Brennero, que, com 64 quilômetros, promete ser o túnel ferroviário mais longo do mundo. O projeto, que atravessa os Alpes e conecta a Itália à Áustria, é uma peça central na estratégia do continente para transferir uma parcela significativa do transporte de mercadorias das rodovias para os trilhos, visando a descarbonização e a otimização logística.

O túnel, parte do corredor europeu Escandinávia-Mediterrâneo (SCAN-MED), visa encurtar distâncias e facilitar a conexão entre Munique e Verona. A iniciativa não só promete acelerar o transporte de passageiros e cargas entre a Alemanha e a Itália, mas também aliviar o tráfego nas congestionadas rotas alpinas, reduzindo emissões de CO₂ e os custos logísticos. A concepção "plana" do túnel, mantendo a maior parte do percurso a cerca de 794 metros acima do nível do mar, permitirá que os trens operem com maior eficiência energética, evitando a necessidade de múltiplas locomotivas em trechos de alta inclinação.

O Gigante Alpinho

A magnitude do Túnel de Base do Brennero é impressionante. Com uma extensão total de 64 quilômetros, ele superará o atual recordista. O trecho principal, que ligará Fortezza, na Itália, a Innsbruck, na Áustria, terá aproximadamente 55 quilômetros. Este segmento será composto por dois túneis paralelos, cada um com uma única via, interligados a cada 333 metros por túneis de serviço essenciais para evacuações de emergência. Além das galerias ferroviárias, um túnel exploratório de cinco metros de diâmetro e quase 56 quilômetros de extensão será construído abaixo das galerias principais. Este túnel adicional servirá para pesquisas geológicas e para o manejo de águas subterrâneas na complexa região montanhosa.

Desafios e Conexões

O projeto, iniciado oficialmente em 2007 com escavações começando em 2015, enfrentou inúmeros desafios, incluindo complexidades geológicas com falhas e águas subterrâneas, atrasos administrativos e a paralisação de obras devido à pandemia de COVID-19. Essas adversidades elevaram o orçamento inicial de €6 bilhões para quase €8,4 bilhões. No entanto, em setembro do ano passado, as tuneladoras italianas e austríacas se encontraram, marcando a conexão subterrânea entre os países. A conclusão da conexão transfronteriza das galerias principais neste verão representa um marco, embora ainda restem etapas de revestimento, instalação de vias e sistemas.

Estratégia de Transporte Europeia

O Túnel de Base do Brennero insere-se em um movimento maior da Europa para priorizar o transporte ferroviário como espinha dorsal de sua malha logística. Projetos como o Túnel de Mont Cenis (57,5 km, ligando Lyon a Turim até 2033) e o já inaugurado Túnel de Base de São Gotardo (57,1 km em 2016) demonstram o compromisso do continente com infraestruturas de grande escala. A aposta em trens de passageiros de alta velocidade (até 250 km/h) e trens de carga capazes de transportar até 3.000 toneladas reflete a visão de uma Europa mais conectada, sustentável e eficiente em termos logísticos, reduzindo a dependência de modais mais poluentes e congestionantes.

Futuro nos Trilhos

A expectativa é que o Túnel de Base do Brennero entre em operação em 2032, transformando o transporte entre o norte e o sul da Europa. O sucesso do projeto não apenas consolidará a estratégia europeia de descarbonização e otimização logística, mas também servirá de modelo para futuras megaobras de infraestrutura. A questão central agora é se outros países e regiões seguirão o exemplo europeu, investindo pesadamente em ferrovias para enfrentar os desafios climáticos e de mobilidade do século XXI.

A finalização do Túnel de Base do Brennero representa um passo audacioso na reconstrução da rede ferroviária europeia, com implicações que vão além da mera redução de tempo de viagem, tocando na sustentabilidade e na competitividade econômica do continente. A capacidade de superar obstáculos geológicos e financeiros em prol de uma visão de longo prazo é um testemunho da determinação europeia em redesenhar seu futuro logístico. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka