A adoção desenfreada de inteligência artificial tem levado empresas a um erro fundamental: tratar a tecnologia como um fim, e não como um meio. Segundo Brian Evergreen, ex-líder de estratégia de IA na Microsoft e autor de "Autonomous Transformation", o mercado está invertendo a lógica ao priorizar ferramentas antes de definir uma visão estratégica clara para o negócio.
Em entrevista ao GeekWire, Evergreen argumenta que o foco excessivo em casos de uso isolados é o "inimigo da estratégia". Para o consultor, que também teve passagens por Accenture e AWS, as organizações precisam transitar de uma mentalidade de "IA primeiro" para uma de "valor primeiro", garantindo que a tecnologia sirva a propósitos de longo prazo e não apenas à eficiência operacional imediata.
O erro da automação sem propósito
A tese central de Evergreen é que o playbook padrão de muitas corporações — identificar um problema, escolher uma ferramenta e buscar resultados rápidos — é insuficiente. Essa abordagem gera inércia organizacional, pois falta um norte que sustente as decisões tecnológicas ao longo do tempo. Sem uma visão robusta, a IA torna-se apenas uma camada de custo ou uma tentativa de otimização de processos legados, em vez de um motor de inovação.
O especialista reforça que a visão é a única força capaz de superar a resistência interna das empresas. Quando o objetivo é apenas fazer o que já era feito de forma mais barata, perde-se a oportunidade de criar valor novo, um erro que ele compara a empresas que falham em transitar modelos de negócio, como a transição da Netflix do envio de DVDs para o streaming.
Pessoas como interface e a falácia do job
Um dos pontos mais contraintuitivos da análise de Evergreen é a relação entre humanos e IA. Ele sugere que, em vez de colocar a IA na linha de frente com o cliente, as empresas deveriam mantê-la como uma ferramenta de suporte, enquanto humanos permanecem como a interface principal. O caso da Klarna, que precisou reestruturar sua equipe após uma substituição agressiva de funcionários por IA, serve de alerta sobre os riscos de eliminar o julgamento humano e a gestão de relacionamentos.
Evergreen propõe a separação entre tarefas e empregos. Enquanto a IA pode assumir tarefas repetitivas, a responsabilidade pelo resultado de um trabalho exige accountability, algo que a tecnologia, por definição, não pode prover. O foco deve ser liberar o capital humano para atividades que demandem julgamento, enquanto a IA atua como um motor de suporte nos bastidores.
Implicações para a liderança e o ecossistema
Para líderes de tecnologia e gestores, a mensagem é clara: não espere por permissão para criar valor. Evergreen cita sua própria trajetória, de contratado para entrada de dados a consultor, como exemplo de que a agência individual e a proatividade na automatização de fluxos de trabalho são diferenciais competitivos. Esse comportamento é o que separa empresas que apenas sobrevivem daquelas que se transformam.
No Brasil, onde o ecossistema de inovação busca maturidade na aplicação de IA, a lição é relevante para evitar o desperdício de recursos em projetos que não possuem alinhamento com a estratégia central da companhia. A pressão por resultados trimestrais pode mascarar a falta de um plano estruturado, mas o custo dessa negligência tende a aparecer na incapacidade de adaptação futura do modelo de negócio.
O desafio da incerteza tecnológica
O que permanece incerto é como as organizações conseguirão equilibrar a necessidade de experimentação rápida com a exigência de uma visão estratégica de longo prazo. A tecnologia evolui em ciclos muito mais curtos do que a estratégia corporativa tradicional, o que coloca uma pressão constante sobre os tomadores de decisão.
O monitoramento dessa evolução será essencial nos próximos anos, à medida que o mercado de IA amadureça e as empresas comecem a distinguir entre eficiência de curto prazo e verdadeira vantagem competitiva. A pergunta que fica para os conselhos de administração é se eles estão preparados para liderar essa transição ou apenas seguindo o fluxo do mercado.
Com reportagem de [Brazil Valley](/categoria/Inteligência Artificial)
Source · GeekWire





