A Índia sedia neste fim de semana a cúpula de líderes dos Brics, um encontro que deveria celebrar a crescente influência do bloco, mas que ocorre sob a sombra de uma profunda divisão interna. A guerra liderada pelos Estados Unidos contra o Irã, iniciada há mais de seis meses, colocou dois membros do grupo, Teerã e Abu Dhabi, em lados opostos de um conflito que já elevou o preço do petróleo para mais de US$ 100 o barril.
O desafio central para os anfitriões indianos e para pesos-pesados como a China de Xi Jinping e a Rússia de Vladimir Putin é costurar uma declaração conjunta que seja minimamente aceitável tanto para o Irã quanto para os Emirados Árabes Unidos. O sucesso, ainda que simbólico, é visto como vital para demonstrar que o bloco, que opera por consenso, pode sobreviver às suas próprias contradições.
A expansão como faca de dois gumes
A recente expansão do Brics, que incluiu Irã, Emirados Árabes, Egito e Etiópia, foi desenhada para ampliar a representatividade do chamado Sul Global. No entanto, a cúpula de Nova Délhi expõe a ironia dessa estratégia: ao crescer, o bloco importou tensões regionais que agora ameaçam paralisá-lo. Como apontou Michael Kugelman, do Atlantic Council, em análise citada pela Reuters, o apelo que atraiu novos membros pode, paradoxalmente, tornar o grupo menos eficaz devido às suas visões divergentes.
A prova dessa dificuldade veio em maio, quando uma reunião de ministros das Relações Exteriores do bloco terminou sem um comunicado conjunto justamente pela objeção dos EAU a qualquer texto que não condenasse o Irã. Agora, com os líderes à mesa, a pressão para evitar um novo fracasso é imensa. A suspensão de todas as transações comerciais e financeiras dos Emirados com o Irã em agosto, após o país ter sido atingido por mísseis iranianos, apenas aprofundou o abismo entre os dois membros.
O delicado balé do consenso
A busca por uma linguagem comum é um exercício diplomático complexo. Uma pequena esperança surgiu da recente cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), que conseguiu aprovar uma declaração condenando a campanha militar contra o Irã. O detalhe crucial, porém, é que os Emirados Árabes Unidos não fazem parte da OCX, o que facilitou o consenso. No Brics, a negociação será frente a frente.
A presença confirmada de Xi Jinping e Vladimir Putin sinaliza a importância que Pequim e Moscou atribuem à manutenção da coesão do grupo como um contraponto à ordem ocidental. Para eles, um Brics dividido é uma vitória para as políticas de sanções e pressão econômica lideradas por Washington. O desafio, portanto, não é apenas apaziguar dois membros, mas salvar o próprio projeto político do bloco.
A cúpula de Nova Délhi será menos sobre grandes anúncios e mais sobre um delicado controle de danos. A capacidade — ou a falta dela — de produzir um texto unificado dirá muito sobre o futuro do Brics e sua ambição de ser uma força coerente no cenário global, em vez de apenas um fórum de nações com interesses conflitantes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





