Os países do BRICS estão discutindo a integração de seus sistemas de pagamento rápido e o uso de moedas digitais de banco central (CBDCs) para transações transfronteiriças. A confirmação veio de Sanjay Malhotra, presidente do banco central da Índia, durante um evento em Mumbai, segundo reportagem do Money Times. O objetivo oficial é reduzir os custos e as fricções em pagamentos internacionais entre os membros do bloco.
A leitura, contudo, vai além da eficiência técnica. O movimento sinaliza uma ambição geopolítica de construir uma infraestrutura financeira paralela, menos dependente do dólar americano e do sistema SWIFT, controlado pelo Ocidente. A proposta, que pode entrar na agenda da cúpula do BRICS de 2026, representa um passo calculado na direção de uma maior autonomia monetária para o chamado Sul Global.
A arquitetura de um novo eixo
A proposta se apoia em dois pilares tecnológicos que vêm sendo desenvolvidos de forma independente pelos membros. De um lado, estão os sistemas de pagamento instantâneo, como o Pix no Brasil e o UPI na Índia, que já revolucionaram os mercados domésticos. Conectá-los criaria um trilho eficiente para remessas e comércio, bypassando a rede de bancos correspondentes que hoje domina as transferências globais.
Do outro lado, estão as CBDCs, como o Drex brasileiro e o yuan digital chinês, que já está em fase avançada de testes. A integração dessas moedas digitais soberanas permitiria a liquidação de transações de forma programável e quase instantânea, diretamente entre os bancos centrais ou entidades autorizadas, fortalecendo o uso de moedas locais e diminuindo a necessidade de conversão para o dólar.
Geopolítica em código
Não é coincidência que a busca por alternativas financeiras tenha se intensificado. As sanções econômicas impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia serviram como um alerta para países que buscam maior soberania estratégica. Para China e Rússia, construir um corredor financeiro imune a sanções é uma prioridade. Para Brasil, Índia e outros membros, a atratividade reside na eficiência e na redução da exposição a flutuações da política monetária americana.
O desafio, no entanto, é monumental. A interoperabilidade técnica entre sistemas distintos é complexa, mas os maiores obstáculos são políticos e regulatórios. Alinhar as diferentes legislações, políticas de privacidade de dados e estratégias monetárias de um grupo tão heterogêneo é uma tarefa hercúlea. Como admitiu Malhotra, as conversas ainda estão em "fase de debate".
O projeto é de longo prazo e de execução incerta. Contudo, a simples existência dessa discussão em alto nível já é um fato relevante. Sinaliza que a reconfiguração da ordem financeira global não é mais um debate teórico, mas um projeto em construção, ainda que em seus estágios iniciais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





