O mercado de instalação de painéis solares em telhados no Brasil tem apresentado um crescimento acelerado, superando expectativas de técnicos do setor elétrico e reguladores. Essa expansão é sustentada principalmente pela conta de luz, cujos preços continuam em trajetória ascendente, tornando a geração distribuída (GD) solar uma alternativa cada vez mais atraente para consumidores residenciais e comerciais.

A Sol Agora, uma financeira especializada em geração distribuída e controlada pela Brookfield, baseia sua estratégia nessa premissa. A companhia já atendeu quase 90 mil clientes, a maioria pessoas físicas, consolidando a tese de que há um vasto espaço para crescimento. Atualmente, o Brasil conta com 3,47 milhões de sistemas solares instalados em residências, prédios e estabelecimentos comerciais, com uma potência instalada que já ultrapassa os 35,9 gigawatts, o equivalente a mais do que duas usinas de Itaipu.

Oportunidade em Crédito Solar

Flávio Suchek, CEO da Sol Agora, estima que o mercado de crédito solar movimenta cerca de R$ 9 bilhões por ano, ou aproximadamente R$ 750 milhões por mês. Ele ressalta que as oportunidades ainda são abundantes, apesar da concorrência de players como BV, Santander, Solfácil, Sicred, Banco do Brasil, Bradesco e Caixa. Desde sua fundação em 2022, a fintech já concedeu mais de R$ 2,2 bilhões em crédito e captou R$ 3 bilhões de investidores institucionais via FIDCs. Recentemente, a Sol Agora levantou R$ 600 milhões, com a Brookfield adquirindo a tranche mezanino, o que permitirá financiar cerca de 30 mil novas instalações.

A companhia percebe o mercado de GD residencial como resiliente. A demanda se mantém estável em níveis elevados, mesmo com uma taxa Selic alta por um período prolongado e alterações legislativas que reduziram subsídios. Desde 2020, a GD solar lidera o crescimento anual em capacidade instalada. Embora o mercado tenha sofrido uma retração em 2023 devido ao corte de subsídios, no ano seguinte já retomou e superou seu ritmo anterior de expansão. O CEO aponta que a inflação energética é um fator favorável, pois o custo dos equipamentos solares está estável enquanto o preço da energia elétrica continua subindo, resultando em prazos de retorno (payback) atrativos, de 3,5 a 4,5 anos no Brasil, comparado a 8 a 12 anos na Alemanha.

Mecanismo de Autogeração e Futuro do Mercado

A geração distribuída permite que consumidores residenciais antecipem a fuga da escalada tarifária das distribuidoras, uma vantagem que grandes consumidores já usufruem ao migrar para o mercado livre de energia. Com a abertura prevista do mercado livre para residências até novembro de 2028, Suchek acredita que a GD continuará competitiva. Ela oferece estabilidade, ao contrário da volatilidade de preços inerente ao mercado livre. Nos sistemas financiados pela Sol Agora, a parcela é fixa, e a economia gerada pela autogeração frequentemente cobre o custo da dívida em 4 a 7 anos. Após a quitação, a conta de luz pode cair drasticamente, com o sistema mantendo sua vida útil de 20 anos.

Um diferencial do crédito solar é que a maioria dos usuários financia 100% do valor da instalação, diferentemente de outros segmentos como imóveis e veículos. A Sol Agora avalia que, mais do que uma eventual queda da Selic, a diminuição do comprometimento da renda familiar com dívidas será o principal catalisador para a aceleração do setor. Atualmente, o financiamento representa cerca de 33% das vendas de kits de GD, uma queda em relação ao pico de 57% em 2021. O apetite dos financiadores diminuiu devido ao cenário macroeconômico, levando a Sol Agora a ser mais cautelosa com o risco para controlar a inadimplência. A expectativa é que, com a melhora da renda, a participação dos financiamentos retorne a 40%-45%, impulsionando o mercado.

Expansão e Inovações da Sol Agora

Para impulsionar sua carteira, a Sol Agora busca aumentar o tíquete médio através da inclusão de baterias nos kits solares e da expansão de suas transações com pequenas e médias empresas. A empresa visa diversificar dentro do segmento solar. Suchek acredita que projetos com baterias poderão ser incentivados pela regulação, como ocorreu em outros países, para gerenciar o excesso de geração durante o dia. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) enfrenta pressão de grandes elétricas para incluir a GD em cortes de geração em momentos de sobreoferta na rede, mas a viabilidade operacional e política de tais medidas é questionada, especialmente por envolver milhões de pessoas físicas e uma vasta cadeia de negócios associada.

A Sol Agora lançou a Sol Tempus Capital, uma asset própria para gerir seus FIDCs, com o objetivo de verticalizar a operação e capturar mais valor. A meta é que a nova asset administre R$ 800 milhões ainda este ano e R$ 1,5 bilhão em 2027, reforçando a aposta da Brookfield no contínuo crescimento do setor de geração distribuída solar no Brasil.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech