O concreto bruto, com sua textura inconfundível e formas imponentes, encontrou na Ásia um terreno fértil para manifestações arquitetônicas que desafiam o tempo e a percepção. Longe de ser um estilo monolítico, o brutalismo no continente asiático revela uma surpreendente diversidade, adaptando-se a contextos culturais e climáticos específicos. Uma nova publicação, 'Brutalist Asia', editada por Bob Pang e Derek Lamberton, lança luz sobre essa contribuição muitas vezes subestimada do continente para o movimento arquitetônico, apresentando 140 edifícios espalhados por 28 países.

O livro não se limita a catalogar estruturas; ele busca oferecer um vislumbre da alma por trás do concreto. A curadoria de Bob Pang seleciona dez projetos que exemplificam a força e a versatilidade do brutalismo na Ásia. Desde a ousadia de um complexo universitário no Japão até a funcionalidade geométrica de um correio no Catar, cada projeto conta uma história de inovação, influência e, por vezes, de resiliência diante de desafios históricos, como guerras e limitações de recursos. A publicação é um convite para redescobrir o continente sob uma nova perspectiva estética, onde a solidez do concreto dialoga com a complexidade de suas sociedades e histórias.

A Le Corbusier e Seus Discípulos no Japão

A influência de mestres como Le Corbusier ecoa fortemente na arquitetura brutalista asiática. No Japão, Takamasa Yoshizaka, um dos três arquitetos japoneses que trabalharam diretamente com o renomado arquiteto em Paris, trouxe para seu país as teorias modernistas. Sua obra, a Inter-University Seminar House em Hachioji, Tóquio, é um exemplo notável. Inaugurada em 1965, a complexidade do projeto, com seu salão principal em pirâmide invertida e pavilhões estudantis integrados à paisagem, demonstra uma interpretação radical e ao mesmo tempo orgânica do estilo. A preservação e o uso contínuo deste complexo acadêmico atestam sua relevância e design atemporal.

Outro nome de peso é Kenzo Tange, cujo primeiro projeto fora do Japão foi a Sacred Heart High School for Girls em Taiwan, concluída em 1967. Este edifício, infelizmente o único remanescente de Tange em Taiwan, representa um marco na introdução da arquitetura moderna japonesa no país. A capacidade de Tange de mesclar formas monumentais com uma sensibilidade espacial particular é um testemunho de sua genialidade e da forma como o brutalismo pôde ser moldado por diferentes mãos e visões.

Diversidade de Formas e Funções

A versatilidade do brutalismo se manifesta em projetos que vão além de edifícios institucionais ou religiosos. Na Tailândia, o Round Building na Faculdade de Ciências da Mahidol University, projetado por Amorn Srivong em 1968, exibe uma impressionante habilidade em estruturas em balanço e geometria orgânica, mesmo sem formação arquitetônica formal. Srivong, que começou em canteiros de obras, tornou-se um nome importante na paisagem arquitetônica tailandesa, utilizando as universidades como seus laboratórios de experimentação.

No Irã, o Dafineh Museum, de 1978, é considerado a obra-prima de Nezam Ameri, Kamal Kamooneh e Hormozdyar Khosravi, com forte influência de Frank Lloyd Wright. Já na Índia, Kuldip Singh, com sua educação em Nova Delhi e Londres, criou a National Cooperative Development Corporation em 1980, um edifício que se destaca por suas formas ousadas e estruturas desafiadoras, fruto de uma colaboração com o lendário engenheiro estrutural Mahendra Raj.

Ícones em Hong Kong, Coreia do Sul e Catar

Hong Kong ostenta o Bloco de Salas Especiais e o Tang Shiu Kin Hall do St Stephen's College, projetados por Tao Ho em 1981. Ho transformou o campus disperso em um ponto focal com a adição brutalista, que inclui blocos de salas de aula e um ginásio interligados por escadarias em arco e passarelas elevadas. A intervenção de Ho não apenas modernizou a instituição, mas também redefiniu a paisagem física e pedagógica do colégio.

A Kyungdong Presbyterian Church, na Coreia do Sul, projetada por Kim Swoo-geun em 1981, é frequentemente descrita como a obra de um 'Lorenzo de' Medici' coreano. Inspirada no gesto de oração asiático, suas volumetrias verticais evocam dedos erguidos, enquanto o interior remete à forma escultural da barriga de uma baleia, uma metáfora poderosa para a espiritualidade e a proteção.

No Catar, o General Post Office, concluído em 1985 pelos arquitetos britânicos Twist and Whitley, exemplifica como o brutalismo foi adaptado a climas locais e fundido com a linguagem arquitetônica tradicional do Golfo. Este edifício mostra uma abordagem refinada, onde a estética brutalista se harmoniza com o contexto regional, provando que o estilo não precisava ser uma imposição estrangeira.

Resiliência e Arte no Vietnã e Líbano

A Cua Tung Writers' House, no Vietnã, projetada por Le Huu Thang em 1992, surge em um período de transição pós-Đổi Mới. Patrocinada pela Associação Regional de Literatura e Artes, a casa foi concebida mais como uma escultura do que como uma edificação convencional, refletindo a busca por novas formas de expressão artística em um país em reconstrução.

Talvez um dos exemplos mais notáveis de resiliência seja o Interdesign Building, no Líbano, projetado por Khalil Khoury. A construção se estendeu por 23 anos, interrompida pela guerra civil, e nunca foi totalmente utilizada. Apesar disso, é amplamente reconhecido como uma das estruturas brutalistas e modernistas mais notáveis do Oriente Médio, um testemunho da perseverança artística e arquitetônica em face da adversidade.

O livro 'Brutalist Asia' nos convida a olhar para além da superfície de concreto e a apreciar a riqueza de histórias e interpretações que o brutalismo ofereceu em todo o continente. Cada edifício selecionado é um portal para um momento específico da história, para as ambições de seus arquitetos e para a forma como o concreto bruto se tornou uma linguagem universal, mas com sotaques locais inconfundíveis. A pergunta que fica é: de que outras maneiras o brutalismo moldou e continua a moldar a paisagem urbana e cultural asiática, muitas vezes de formas que ainda não foram totalmente exploradas?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen Architecture