O BTG Pactual publicou recentemente uma análise sobre a economia argentina, projetando um cenário de "otimismo cauteloso" para o país sob a gestão de Javier Milei. Segundo o relatório assinado por Andres Borenstein e Sofia Ordonez, a estabilidade externa e o crescimento econômico apresentam sinais de recuperação, fundamentados em uma balança de pagamentos mais robusta e na expectativa de superávit na conta corrente a partir de 2026.

Apesar dos indicadores macroeconômicos favoráveis, o documento destaca que a sustentabilidade do projeto ultraliberal enfrenta obstáculos políticos significativos. A alta taxa de rejeição ao presidente, que atinge cerca de 50% do eleitorado, emerge como o principal fator de incerteza para a continuidade das reformas estruturais com vistas às eleições de 2027, sinalizando um ambiente de fragilidade na governabilidade.

O pilar das exportações e reservas

O otimismo do BTG Pactual baseia-se fortemente no desempenho do setor externo. A expectativa é que a conta corrente da Argentina alcance um superávit de 0,2% do PIB em 2026, amparada por uma safra recorde de grãos, que deve superar em 19% o volume da colheita anterior. Esse fluxo de divisas é visto como um alívio necessário para o Banco Central da Argentina (BCRA), que projeta um aumento de quase US$ 9 bilhões em suas reservas internacionais.

Além do agronegócio, o setor de energia aparece como um motor de crescimento de longo prazo. Investimentos em petróleo, gás e mineração — especialmente em lítio e cobre, que já somam cerca de US$ 60 bilhões — são descritos como ativos estratégicos que devem começar a gerar retornos concretos nos próximos anos, consolidando a base de sustentação para a balança de pagamentos do país.

O desafio da governabilidade

O mecanismo que sustenta o otimismo econômico contrasta com a realidade política. O relatório aponta que a implementação de reformas profundas, essenciais para a visão de Milei, torna-se cada vez mais improvável diante da erosão do controle sobre a agenda pública. Casos de corrupção e falhas na narrativa governamental têm desgastado a base de apoio, tornando o ambiente legislativo e social mais hostil.

A dinâmica eleitoral de 2027 aparece como o ponto de inflexão. Embora não exista hoje um candidato opositor capaz de aglutinar todo o descontentamento popular, a rejeição de 49,5% ao governo cria um vácuo de autoridade. O BTG avalia que essa polarização, aliada à falta de alternativas claras, pode paralisar as decisões econômicas necessárias para manter a confiança dos investidores internacionais.

Tensões entre mercado e eleitorado

Para os stakeholders, a tensão reside na capacidade do governo de manter o rigor fiscal em um ano de disputa eleitoral. Investidores que apostam na recuperação argentina monitoram de perto se o governo cederá a pressões populistas para reduzir a rejeição, o que poderia comprometer a estabilidade cambial e a emissão de títulos em dólar.

A leitura analítica sugere que o sucesso econômico, embora possível, não garante a sobrevivência política. A fragmentação da oposição oferece um respiro temporário a Milei, mas a dependência de resultados macroeconômicos imediatos para sustentar o apoio popular coloca o governo em uma posição de vulnerabilidade permanente perante o eleitorado.

Incertezas para 2027

O que permanece em aberto é a capacidade de Milei em converter os ganhos macroeconômicos em capital político antes do pleito de 2027. A pergunta central para o mercado é se o otimismo do BTG em relação às reservas será suficiente para blindar a economia contra as volatilidades típicas dos anos eleitorais na Argentina.

Observar a evolução da base de apoio de Milei e a possível emergência de novas lideranças opositoras será fundamental para entender se o "otimismo cauteloso" se transformará em uma tendência duradoura ou apenas em um breve período de estabilidade antes de uma nova transição política.

O cenário argentino permanece como um teste de resiliência tanto para a teoria econômica liberal quanto para a tolerância social às reformas de choque. A capacidade de navegar entre o rigor fiscal exigido pelo mercado e a pressão política das ruas definirá o legado do atual governo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times