O Museu Casa do Terror de Budapeste, um dos símbolos culturais da era de Viktor Orbán, foi temporariamente fechado pelo novo governo da Hungria. O ministro da Cultura, Zoltán Tarr, também demitiu a diretora da instituição, Mária Schmidt, uma antiga conselheira de Orbán. A medida, segundo reportagem da ARTnews, faz parte de um esforço mais amplo do recém-eleito primeiro-ministro, Péter Magyar, para reverter o controle que seu antecessor exercia sobre a mídia e as instituições culturais estatais.
A decisão de fechar o museu para uma “revisão do conteúdo da exposição” não é um ato administrativo, mas um movimento de profundo simbolismo político. Inaugurado em 2002, o museu foi, desde o início, uma peça controversa, acusada por críticos de ser um “golpe político” com uma narrativa polida e seletiva sobre os traumas do século XX húngaro. Para o novo governo, a intervenção é um passo necessário para desmantelar o aparato ideológico construído por Orbán ao longo de 16 anos no poder.
Um museu ou um palanque?
A controvérsia em torno do Casa do Terror reside em sua própria concepção. A instituição foi criada para documentar os regimes fascista e comunista da Hungria, mas seus críticos argumentam que ela servia a uma agenda política específica: equiparar os dois regimes de forma a reescrever a história e fortalecer a narrativa nacionalista do governo Orbán. A direção de Mária Schmidt, figura próxima ao ex-premiê, sempre reforçou essa percepção.
O desmonte vai além da troca de diretoria. O parlamento húngaro também dissolveu a fundação que operava o museu, indicando uma reestruturação completa. Com mais de 8 milhões de visitantes desde a sua abertura, o museu não era uma entidade marginal, mas um pilar influente na projeção da visão de mundo de Orbán, tanto para o público interno quanto para turistas.
A disputa pela memória
O fechamento, justificado oficialmente no site do museu por “razões técnicas”, expõe a tensão inerente ao uso da história como ferramenta política. A ação do governo de Magyar sinaliza que a disputa pela memória nacional é um campo de batalha central na transição política húngara. A questão que se impõe é como será a reabertura.
O desafio será enorme: transformar um espaço concebido como arma ideológica em um local de reflexão histórica genuína, sem simplesmente substituir uma narrativa estatal por outra. O destino do Casa do Terror servirá como um termômetro para a capacidade do novo governo de lidar com o legado complexo e polarizado de seu antecessor, um desafio que ecoa em diversas democracias que enfrentam passados autoritários.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





