A indústria global de beleza, historicamente dominada pelo luxo francês e pela inovação da K-beauty sul-coreana, enfrenta uma nova e silenciosa força disruptiva: a C-beauty. O fenômeno, que ganha corpo através do movimento estratégico conhecido como chuhai — a expansão de empresas chinesas para o exterior devido à saturação do mercado doméstico —, começa a deixar o nicho para se tornar uma potência influente. Segundo dados da Euromonitor, entre 2019 e 2024, as marcas chinesas de maquiagem e cuidados com a pele registraram taxas de crescimento anual composto de 70% e 115%, respectivamente, no Sudeste Asiático.

O movimento não é apenas comercial, mas estrutural. Gigantes tradicionais como a L'Oréal já reconhecem a mudança de paradigma, tendo adquirido participações minoritárias em empresas como Chando e Lan. A estratégia reflete uma mudança na percepção de valor: o que antes era visto como um polo de manufatura de baixo custo agora se posiciona como um centro de inovação científica e tecnológica, capaz de ditar tendências globais através de plataformas digitais.

A transição da fábrica para a inovação

Historicamente, o rótulo de "copia barata" perseguiu os produtos chineses no Ocidente. No entanto, o cenário atual é sustentado por investimentos massivos em pesquisa e desenvolvimento. Em 2024, a China destinou 1,03 trilhão de dólares para P&D, superando os 1,01 trilhão dos Estados Unidos, segundo dados da OCDE. Esse aporte permitiu que a indústria cosmética local integrasse a medicina tradicional chinesa à biotecnologia avançada, criando um diferencial competitivo único que vai além do preço.

Especialistas apontam que a expertise técnica acumulada por décadas de fabricação para marcas globais foi o alicerce para essa transição. A capacidade de fundir sabedoria ancestral com processos laboratoriais modernos permite que empresas como a Botanee, proprietária da marca Winona, ganhem relevância técnica. A indústria deixou de ser apenas um executor para se tornar um criador de fórmulas complexas que atendem às demandas de consumidores mais exigentes.

O modelo de negócios nativo global

O caso da Sheglam, marca nascida sob a estrutura da varejista Shein, exemplifica a nova dinâmica de mercado. Diferente de concorrentes que consolidam sua marca na China antes de buscar o exterior, a Sheglam foi desenhada desde o primeiro dia para o consumidor internacional. Com 400 milhões de dólares em vendas anuais e presença em 16 países, a marca utiliza a agilidade do fast fashion aplicada à maquiagem.

O desafio para essas empresas, contudo, reside na construção de uma identidade de marca sólida que transcenda o custo-benefício. A dependência de colaborações externas e preços agressivos pode limitar a percepção de valor a longo prazo. A sustentabilidade dessa expansão dependerá da capacidade dessas marcas de fidelizar o público através de uma experiência que vá além da oferta promocional inicial.

Tensões no mercado asiático

O impacto dessa ascensão é sentido de forma mais aguda pelos vizinhos regionais. Dados do Serviço de Aduanas da Coreia do Sul indicam que as importações de cosméticos chineses atingiram um recorde de 71,76 milhões de dólares em 2025, um aumento de 84% em relação ao ano anterior. O país que exportou a febre da K-beauty agora se vê na posição de importador, forçando uma reavaliação das cadeias de suprimentos e da competitividade local.

Para reguladores e competidores globais, a C-beauty representa um desafio regulatório e de mercado. A velocidade com que essas empresas adaptam produtos às tendências das redes sociais, como o TikTok, coloca pressão sobre marcas tradicionais que possuem ciclos de desenvolvimento mais lentos e burocráticos. A questão central é se o modelo de escalabilidade chinesa será replicável em mercados ocidentais com regulamentações mais rígidas.

O futuro da hegemonia estética

O que permanece incerto é se a C-beauty conseguirá manter o ritmo de crescimento à medida que enfrenta escrutínio sobre transparência e padrões de qualidade globais. O mercado observará de perto se a consolidação dessas marcas ocorrerá através de aquisições por grandes conglomerados ou se elas conseguirão manter sua independência operacional.

A ascensão chinesa no setor de beleza sugere que a inovação não está mais restrita aos eixos tradicionais, forçando uma reconfiguração global da indústria. O consumidor, por sua vez, parece cada vez mais disposto a testar novas alternativas, desde que a promessa de eficácia seja entregue com a conveniência digital a que se acostumou. A batalha pela preferência do consumidor global está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka