O oceano que circunda as Ilhas do Canal, na Califórnia, ostenta uma biodiversidade impressionante, com florestas de kelp imponentes e uma variedade de vida marinha que lembra as ilhas Galápagos. No entanto, essa vitalidade não é inata; é o resultado de décadas de esforços de conservação. Violet Sage Walker, presidente do Conselho Tribal Chumash do Norte da Califórnia, descreveu como as imagens de satélite das ilhas antes das proteções mostravam um cenário desolador, comparável a "um planeta morto", devido à pesca comercial intensiva que dizimou florestas de kelp e espécies-chave. A partir de 2003, a designação de Áreas Marinhas Protegidas (MPAs) transformou essas águas em "parques estaduais subaquáticos", criando refúgios seguros que funcionam como berçários para a vida marinha e protegem dezenas de espécies icônicas.
Agora, após 15 anos, a Califórnia se encontra em um ponto de inflexão histórico. Autoridades estaduais estão revisando sua rede de MPAs pela primeira vez, com propostas para criar novas áreas e expandir as existentes. "Esta é uma oportunidade histórica que não queremos perder", afirma Doug McCauley, professor de ciências marinhas da UC Santa Barbara. As MPAs são zonas oceânicas com restrições a atividades como pesca, perfuração de petróleo e gás, e perturbações do leito marinho, permitindo a recuperação de ecossistemas danificados. Onde essas atividades são limitadas, observa-se "peixes maiores, vida selvagem mais abundante e um habitat mais saudável", segundo Sandy Aylesworth, diretora da Nature Conservancy. Entre as potenciais adições para 2026, destacam-se duas novas propostas na Costa Central: a Área de Conservação Marinha do Estado de Point Sal e Mishopshno. Ambas são co-patrocinadas por tribos californianas em colaboração com organizações ambientais, marcando um avanço significativo no reconhecimento da gestão tribal dos oceanos.
A Convergência de Habitats e Cultura
A proposta para a Área de Conservação Marinha do Estado de Point Sal abrange cerca de 23 quilômetros quadrados ao largo da costa do Condado de Santa Bárbara. A geografia local, com um promontório que abriga as águas ao sul do vento, cria um ambiente calmo propício para o desenvolvimento de larvas de peixes. Nas proximidades, a Rocha do Leão serve como ponto de encontro para focas e leões-marinhos, além de área de descanso para aves marinhas, enquanto florestas de kelp e recifes rochosos oferecem habitat para peixes, tubarões e lontras marinhas. Cientistas já documentaram mais de 880 leões-marinhos em um único dia na região. Para o Conselho Tribal Chumash do Norte, Point Sal é um local de profunda significância cultural, com vestígios de antigos sítios de aldeias e uma relação ancestral com a área. "Nosso povo viveu e prosperou ali por milhares de anos", relata Walker.
Essa conexão histórica é o cerne de outra característica importante da revisão atual das MPAs: a gestão tribal. Embora as MPAs atuais da Califórnia não possuam sistemas formais de cogestão tribal, as tribos têm sido guardiãs das terras e águas da Costa Central por mais de 10.000 anos. As propostas de Point Sal e Mishopshno representam um dos primeiros esforços para integrar formalmente as tribos na rede de MPAs. Walker expressa o desejo de que a Califórnia estabeleça um caminho mais claro para que as tribos costeiras participem ativamente da gestão oceânica, incluindo acesso para práticas culturais e um papel decisório. "Ser capaz de nos reconectar e oferecer nossa visão e nossa ajuda no enfrentamento da resiliência climática e da gestão costeira é fundamental", enfatiza.
Mishopshno: Um Refúgio para a Vida Marinha e Conhecimento Ancestral
Outro exemplo notável da gestão tribal é a proposta para a Área de Conservação Marinha do Estado de Mishopshno, localizada perto de Carpinteria. Esta área abriga uma rara convergência de habitats: um recife rochoso de 2,6 quilômetros que sustenta uma das florestas de kelp mais antigas da Costa Central, adjacente a um habitat de fundo arenoso, praia e um pântano salgado protegido. Essa conectividade cria áreas de alimentação e berçário para a vida marinha, sustentando centenas de raias-morcego, grandes espécies de peixes e tubarões-brancos juvenis. A proposta, patrocinada pela Tribo Ynez de Índios Chumash, NRDC e o Environmental Defense Center, leva o nome de uma histórica aldeia Chumash na região.
Carlos Gauna, cineasta, documentarista e pesquisador de tubarões, dedicou milhares de horas a filmar o ambiente marinho que seria protegido por Mishopshno. Ele o descreve como "um dos lugares mais incríveis do mundo para ver um tubarão-branco", com uma abundância que não se encontra em nenhum outro lugar da costa californiana. Ao longo de seus anos de filmagem, Gauna testemunhou atividades prejudiciais, como pesca ilegal e incidentes com jet skis que visavam a vida selvagem. Ele relata ter visto "tubarões sendo atingidos e feridos por barcos, ou até mesmo mortos deliberadamente". A designação de MPA, ele acredita, ajudaria a proteger esses animais, sinalizando a área como um refúgio seguro. Gauna cita o exemplo de Cabo Pulmo, na Baja California, onde a área protegida exibe um ecossistema vibrante e abundante, em contraste gritante com as zonas de pesca intensiva vizinhas, que se assemelham a "um deserto subaquático".
Implicações para o Futuro Oceânico da Califórnia
A população da Califórnia demonstra um forte apoio à expansão das proteções marinhas; cerca de 70% dos eleitores apoiam as propostas de Point Sal e Mishopshno. Apesar da oposição de um pequeno grupo de interesses pesqueiros, não há evidências científicas que sustentem a alegação de que as MPAs californianas causem prejuízos financeiros à pesca. Pelo contrário, um estudo de 2021 sobre duas MPAs no sul da Califórnia, estabelecidas em 2012, indicou um aumento de aproximadamente 225% na captura de lagostas em áreas circundantes ao longo de seis anos. A decisão final da Comissão de Pesca e Caça da Califórnia sobre as mudanças na rede de MPAs está prevista para os dias 14 a 16 de outubro. "Temos a oportunidade agora de proteger as áreas onde a Califórnia tem jurisdição, em um momento em que o governo federal está desfazendo proteções de forma mais ampla", observa McCauley. Dado que as revisões periódicas da rede de MPAs ocorrem apenas a cada dez anos, é improvável que a Comissão considere estas propostas novamente em muitos anos.
Perguntas em Aberto e o Caminho Adiante
O resultado do processo de outubro de 2026 poderá moldar significativamente o futuro da rede de proteção marinha da Califórnia. Para Walker, as apostas transcendem este momento específico. "O oceano, dada a oportunidade, prosperará", ela afirma, "mas temos que dar a ele o espaço e o tempo para se curar". A decisão iminente da Comissão de Pesca e Caça da Califórnia sobre a expansão das MPAs representa uma janela de oportunidade para proteger áreas preciosas e a vida marinha que nelas habita. A sociedade civil, incluindo organizações como a NRDC, está mobilizando apoio para que a Comissão conserve essas regiões especiais da costa. A questão central permanece: a Califórnia aproveitará essa chance para fortalecer sua resiliência ecológica e seu compromisso com a gestão indígena dos oceanos, ou permitirá que interesses de curto prazo comprometam um legado de conservação de longo prazo?
Com reportagem de Brazil Valley
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