O primeiro-ministro do Camboja, Hun Manet, anunciou nesta quarta-feira que o país erradicou completamente os grandes centros de fraude cibernética que ganharam notoriedade mundial. A declaração foi feita durante uma conferência sobre o combate a cibergolpes, sediada pelo Camboja em parceria com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e a Interpol. A demonstração de força incluiu a condução de jornalistas a alguns dos locais antes ocupados por esses centros, que agora se encontravam vazios, como prova dos esforços do governo em fechá-los. Em agosto, o Camboja já havia declarado sucesso após o encerramento de centenas desses complexos.
Redes criminosas e a impunidade
Embora o governo cambojano afirme ter desmantelado as operações em larga escala, especialistas e outros governos expressam ceticismo quanto à profundidade dessas ações. A alegação é que, enquanto muitos dos edifícios que abrigavam os centros de fraude foram de fato fechados, as redes criminosas organizadas por trás dessas operações, e os indivíduos que lucravam com elas, em grande parte escaparam de investigações e punições. Mark Taylor, consultor anticorrupção e ex-chefe de um programa de combate ao tráfico no Camboja, aponta que o governo fez "comparativamente pouco" para desmantelar as organizações criminosas e investigar ou punir elites empresariais e políticas que supostamente protegiam e se beneficiavam dessas atividades ilícitas.
Ameaças globais e pressão internacional
Os cibergolpes, que se intensificaram significativamente durante a pandemia de COVID-19, já causaram perdas globais estimadas entre US$ 88,3 bilhões e US$ 114,1 bilhões para 2025, segundo o UNODC. As operações, que envolvem centenas de milhares de pessoas forçadas a manter os esquemas, cresceram em regiões do Sudeste Asiático onde a aplicação da lei tem sido historicamente fraca. A comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, tem pressionado o Camboja por ações mais robustas. Deputados americanos, como o congressista Brian Mast, presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, já sugeriram a consideração de sanções contra figuras políticas cambojanas de alto escalão, incluindo um vice-primeiro-ministro, por supostas ligações com os centros de fraude.
Cooperação e desafios futuros
O primeiro-ministro Hun Manet destacou a necessidade de cooperação internacional para combater o problema, afirmando que nenhum país pode resolver a questão sozinho. A conferência sediada em Phnom Penh buscou reforçar essa colaboração. No entanto, a falta de evidências concretas apresentadas pelo governo e as preocupações persistentes sobre a impunidade das redes criminosas e seus protetores levantam dúvidas sobre a eficácia das medidas tomadas. A natureza descentralizada e fragmentada das operações, conforme mencionado por Manet, pode ser tanto uma consequência do combate quanto uma estratégia para evadir a detecção e a repressão.
Perguntas em aberto
Resta saber se o Camboja tomará medidas mais decisivas para investigar e processar os verdadeiros arquitetos e beneficiários dos esquemas de fraude, em vez de focar apenas no fechamento físico dos locais. A vigilância contínua mencionada pelo governo será testada à medida que as redes tentam se reorganizar. A cooperação internacional, embora essencial, precisará de mais do que declarações de boas intenções para desmantelar efetivamente essas operações criminosas transnacionais e trazer os responsáveis à justiça, especialmente aqueles com poder e influência política.
O desmantelamento completo das operações de fraude cibernética no Camboja, como alegado pelo governo, ainda enfrenta um longo caminho. A pressão internacional e as análises de especialistas sugerem que, sem investigações aprofundadas e a punição dos envolvidos, a erradicação efetiva desses esquemas globais permanece um desafio distante.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





