A Cansei Vendi, um dos principais nomes do mercado de revenda de artigos de luxo no Brasil, realizou uma reestruturação profunda em sua operação. Após uma fase de expansão física que visava o modelo omnichannel, a startup decidiu encerrar sua loja nos Jardins, em São Paulo, e cortar custos operacionais para priorizar o equilíbrio de caixa. A empresa, fundada em 2013 por Leilane Sabatini, agora opera com uma estrutura significativamente menor, focada na rentabilidade imediata.

Segundo reportagem do Startups, a decisão de recuar marca uma mudança de rota estratégica para a companhia. Após o fechamento do ponto físico, que chegou a impulsionar o faturamento da marca, a empresa viu sua receita recuar cerca de 40%, obrigando a CEO a redesenhar o modelo de negócios para garantir a sobrevivência da operação sem a necessidade de novas rodadas de captação de capital externo.

O impacto da estratégia física

A incursão no varejo físico em 2022 foi vista como um movimento de consolidação da marca no mercado de luxo. A loja nos Jardins servia como uma vitrine para o catálogo digital e um ponto de apoio para clientes com menor familiaridade tecnológica, especialmente mulheres acima de 50 anos. A iniciativa, que inicialmente dobrou o faturamento da empresa, foi elogiada por executivos do setor, incluindo representantes da Galeries Lafayette, pelo formato inovador de integração entre o digital e o presencial.

Contudo, a manutenção do espaço trouxe desafios imprevistos. Problemas de segurança no imóvel, que exigiram a contratação de vigilância armada, elevaram os custos fixos a patamares insustentáveis. A decisão de encerrar a unidade, tomada no final de 2024, reflete a vulnerabilidade de modelos híbridos quando confrontados com custos operacionais imprevistos em áreas urbanas de alto custo, forçando a empresa a reavaliar sua escala de atuação.

Ajuste de foco e liquidez

A reestruturação não se limitou ao fechamento do espaço físico. A Cansei Vendi reduziu sua equipe de 35 para seis colaboradores e restringiu drasticamente seu portfólio. A empresa deixou de aceitar roupas e calçados, concentrando-se exclusivamente em bolsas, acessórios de couro, joias e relógios. Essa mudança visa aumentar o giro de estoque e elevar o ticket médio, focando em categorias de maior liquidez.

O movimento sugere uma mudança na filosofia de gestão da startup. Ao descartar a busca por crescimento acelerado via capital de risco, Leilane Sabatini prioriza agora o breakeven. A empresa, que já recebeu aportes anjos e rodadas pré-Série A, busca consolidar um modelo de negócio autossustentável, afastando-se da dependência de investidores externos para cobrir eventuais déficits operacionais.

Desafios do mercado de moda circular

O cenário para o setor de moda circular no Brasil apresenta tensões estruturais. Embora o mercado global tenha crescido, a falta de consolidação no ambiente doméstico e a saída de concorrentes, como a Troc, demonstram a dificuldade de escalar brechós online de luxo. A instabilidade do varejo de moda brasileiro impõe barreiras adicionais, forçando empresas a buscar eficiência operacional antes de tentar expandir a base de clientes.

Para a Cansei Vendi, o desafio agora é provar que a operação enxuta consegue manter a relevância no mercado. A empresa mira um crescimento de 20% ao ano, retornando aos patamares históricos anteriores à expansão física, enquanto tenta tornar sua receita mais constante em um ambiente de consumo volátil.

Perspectivas e incertezas

O futuro da Cansei Vendi permanece atrelado à capacidade de manter a saúde financeira com uma equipe reduzida. A transição para um modelo de marketplace focado em itens de alta liquidez é uma tentativa de mitigar os riscos de estoque, mas a concorrência com plataformas globais e outros players locais continua sendo um ponto de atenção para os próximos meses.

O mercado observará se a atual estrutura enxuta será suficiente para manter a competitividade da marca a longo prazo. A trajetória da empresa ilustra os dilemas de startups que precisam equilibrar o desejo de expansão com a realidade de um mercado que, cada vez mais, cobra resultados financeiros concretos e sustentáveis.

A estratégia de priorizar o caixa em detrimento do crescimento agressivo é uma tendência crescente no ecossistema de startups brasileiro. O sucesso dessa transição dependerá da resiliência da marca em um mercado de luxo que exige confiança e curadoria impecável, elementos que a empresa busca preservar em seu novo formato de operação.

Com reportagem de Brazil Valley

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