A rotina de trabalho no Brasil se intensificou notavelmente nos últimos dois anos, com 63% dos profissionais relatando um crescimento expressivo em suas demandas. Este dado, proveniente da terceira edição da pesquisa global Workforce da Korn Ferry, que consultou mais de 16 mil pessoas em 11 mercados, posiciona o país ligeiramente acima da média global de 62%. O cenário é agravado pelo fato de que 47% dos brasileiros se sentem ocupados demais para entregar resultados relevantes, e metade afirma que as demandas já excedem sua capacidade de entrega, superando os 44% registrados mundialmente. O cerne do problema, segundo Rodrigo Araújo, Managing Partner da Korn Ferry Brasil, reside no descompasso entre a clareza das prioridades e o tempo disponível para executá-las. "A clareza sobre as prioridades é importante, mas não é suficiente quando a rotina permanece tomada por demandas que pouco contribuem para os resultados. Se as empresas não eliminarem atividades de baixo valor, as pessoas continuarão sabendo o que é mais importante, mas sem tempo para se dedicar a isso, uma situação que pode, inclusive, comprometer sua motivação", explica.

O Acúmulo de Funções e a Redução Gerencial

A sobrecarga no Brasil se manifesta de forma concreta no acúmulo de responsabilidades. Cerca de 59% dos profissionais brasileiros relatam acumular funções de mais de um cargo, um número próximo da média global de 61%. Esse fenômeno é parcialmente atribuído à redução da camada gerencial, que afeta 39% dos trabalhadores, deixando-os sem um direcionamento claro sobre suas prioridades. O estudo sugere que a inteligência artificial, ao assumir parte das tarefas, tem levado à redistribuição do trabalho restante entre os colaboradores remanescentes, gerando a sensação de exercer múltiplas funções simultaneamente. Apesar desse esforço adicional, 58% dos brasileiros sentem-se adequadamente recompensados financeiramente, indicando que o desgaste está mais ligado à falta de prazos e expectativas definidas para esse acúmulo do que à remuneração.

A Pressão sobre a Liderança Intermediária

A liderança intermediária no Brasil enfrenta uma pressão particular. Com 46% das organizações tendo reduzido o número de gestores, 49% desses líderes relatam exaustão com o ritmo das mudanças. Adicionalmente, 47% se sentem ocupados demais para entregar resultados relevantes, e apenas 18% recebem o suporte necessário de seus superiores. Essa camada gerencial é pressionada tanto por demandas por resultados extraordinários vindos de cima quanto pelo desgaste das equipes sobrecarregadas vindas de baixo, absorvendo ambas as pressões sem o preparo ou tempo proporcional para gerir eficazmente. Vinicius De Luca, presidente de Consultoria para a América do Sul da Korn Ferry, enfatiza que proteger a capacidade gerencial é uma decisão estratégica de negócio, pois nenhuma organização sustenta desempenho sem líderes com tempo e condições para liderar.

A IA: Paradoxo entre Expectativa e Realidade

A inteligência artificial apresenta um paradoxo no ambiente de trabalho brasileiro. Enquanto 52% dos profissionais relatam que as ferramentas de IA aumentaram o número de tarefas esperadas em suas funções – um resultado próximo dos 51% globais –, o Brasil se destaca positivamente no quesito treinamento. 70% dos brasileiros afirmam ter recebido treinamento adequado para utilizar essas ferramentas, superando significativamente os 52% da média global. Contudo, a eficiência real obtida com a IA no dia a dia ainda é um ponto de atenção, com 63% dos brasileiros relatando ganho de eficiência, um índice inferior aos 74% globais. A principal questão reside no descompasso entre a iniciativa individual e a transformação organizacional, com processos e estruturas existentes ainda limitando o desempenho e a adoção plena da tecnologia.

Eficiência vs. Inovação e Desafios de Governança

O estudo aponta que 63% dos profissionais brasileiros reconhecem que suas organizações priorizam a eficiência acima da exploração de novas formas de gerar valor. Essa busca incessante por otimização, aliada a processos e estruturas legados, limita o desempenho individual de 52% dos trabalhadores. A transformação das funções, quando ocorre de maneira mais individual do que estruturada, levanta desafios de governança, como a medição do impacto das implementações e a garantia da segurança dos dados. Apenas 16% dos profissionais afirmam que a organização é eficaz em transformar novas ideias em valor, evidenciando a necessidade de um redesenho mais profundo para harmonizar a colaboração entre humanos e tecnologia e impulsionar a inovação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside