A indústria de smartphones enfrenta uma mudança estrutural em sua cadeia de custos, com a memória RAM se aproximando — e, em alguns casos, superando — o papel de componente mais caro do dispositivo. Segundo declarações do cofundador e CEO da Nothing, Carl Pei, relatadas pelo El Confidencial, o encarecimento dos módulos de memória já altera os planos de precificação das fabricantes e sinaliza um mercado de dispositivos móveis mais caro nos próximos meses.

O executivo descreveu um cenário em que a participação da memória no custo total do hardware cresceu de forma atípica, a ponto de rivalizar com processadores e telas. Em projetos recentes, disse ele, o custo de DRAM e armazenamento avançou substancialmente entre a decisão de fabricação e a chegada do produto ao mercado, evidenciando uma volatilidade que desafia a previsibilidade financeira das empresas.

O impacto da inteligência artificial na escassez

A explicação para esse fenômeno reside em uma crise de suprimentos que atinge a DRAM e a NAND Flash, tecnologias essenciais tanto para dispositivos móveis quanto para a infraestrutura de centros de dados. A corrida global pela implementação de sistemas de inteligência artificial vem deslocando a capacidade produtiva das grandes fabricantes de semicondutores.

Empresas como Samsung, SK Hynix e Micron têm reorientado parte de suas linhas de produção para atender à demanda de chips de alto desempenho, necessários para treinar e rodar modelos de IA. Esse movimento reduz a disponibilidade e eleva os preços dos módulos destinados ao mercado de consumo, deixando os fabricantes de smartphones com margens de manobra significativamente menores em um setor já conhecido pela alta competitividade e margens estreitas.

A nova dinâmica de preços ao consumidor

O cenário descrito por Pei sugere que a era de descontos agressivos pode estar perdendo fôlego. Segundo ele, os preços dos aparelhos vêm numa trajetória de alta desde o início do ano, com modelos chegando ao mercado com valores superiores aos de seus antecessores. A tendência é global, afetando desde mercados emergentes até economias desenvolvidas.

Vale notar que a estratégia de antecipar compras para evitar custos maiores pode ser ineficaz. Em momentos de escassez, a memória costuma ser alocada por contratos de longo prazo, tornando o acesso ao componente um desafio logístico e financeiro que transcende o simples poder de compra imediato de uma fabricante menor.

Implicações para o ecossistema mobile

Para o mercado, a consequência direta é uma pressão renovada sobre os segmentos de entrada e intermediários, onde o custo do hardware é o principal balizador do preço final. Fabricantes que dependem de componentes de prateleira encontram dificuldades em absorver esses aumentos sem repassá-los ao consumidor, o que pode esfriar a demanda por novas unidades.

Esse quadro também pode favorecer o mercado de aparelhos reacondicionados ou incentivar os usuários a estenderem o ciclo de vida de seus dispositivos atuais. A estabilidade de preços, que serviu como pilar para o crescimento da adoção de smartphones na última década, parece ameaçada diante da nova priorização industrial forçada pela IA.

Incertezas no ciclo de suprimentos

O que permanece incerto é a duração desse desequilíbrio na cadeia de suprimentos. Enquanto a demanda por infraestrutura de IA continuar crescendo em ritmo acelerado, a prioridade das fabricantes de memória dificilmente retornará ao patamar de equilíbrio anterior para o setor de consumo.

O mercado deverá observar atentamente como as fabricantes de menor escala reagirão a essa nova realidade de custos. A capacidade de diversificar fornecedores ou ajustar o design dos produtos para mitigar a dependência de memórias de alto custo será um diferencial competitivo crucial para manter relevância no varejo.

Com reportagem do El Confidencial (https://www.elconfidencial.com/tecnologia/2026-06-18/carl-pei-nothing-subida-precio-movil-ram-1qrt_4374291/)

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