Dois anos após a passagem do furacão Helene, o oeste da Carolina do Norte não apenas se recuperou, mas também transformou as cicatrizes deixadas pelo desastre em um catalisador para a construção de um futuro mais resiliente. O que antes eram esforços improvisados de ajuda mútua em meio à falta de energia, água e comunicação, hoje ganha contornos de planejamento estruturado. Comunidades locais estão ativamente convertendo centros comunitários, igrejas e bibliotecas em "resilience hubs", espaços já confiáveis e utilizados pelos moradores, que agora recebem investimentos em infraestrutura e capacitação para servir como pontos de apoio em futuras emergências climáticas.
Esses "hubs" não são apenas locais físicos, mas representam um movimento mais amplo de preparação. Exemplos como a instalação de painéis solares na East Asheville Library e a oferta de workshops sobre ferramentas elétricas na Asheville Tool Library demonstram uma nova abordagem. Em Old Fort, um encontro comunitário discutiu planos de ação para ondas de calor, evidenciando a integração entre infraestrutura e engajamento social. A cidade de Asheville, por sua vez, destinou US$ 2 milhões para fortalecer esses centros, com um compromisso de longo prazo de até US$ 10 milhões, refletindo uma tendência nacional de investimento em infraestrutura de resiliência.
Microgrids Solares: Energia para os Essenciais
Uma das respostas mais concretas ao legado do furacão Helene é a implementação de microgrids solares. Em Marshall, a instalação de um sistema de energia solar com baterias em Beacon of Hope, um centro que abriga lavanderia, brechó e banco de alimentos, exemplifica essa estratégia. O sistema, capaz de armazenar 68 quilowatts-hora, garante o funcionamento de freezers, geladeiras e outros equipamentos essenciais por pelo menos um dia, mesmo sem sol ou conexão à rede principal. Este é o primeiro de 26 microgrids planejados para a região, financiados por uma subvenção de US$ 5 milhões do Departamento de Qualidade Ambiental do estado. A iniciativa visa garantir que instalações críticas, como bancos de alimentos que atendem cerca de 1.600 famílias semanalmente, permaneçam operacionais durante apagões, preservando suprimentos vitais e mantendo serviços essenciais.
A expansão desses microgrids, no entanto, enfrenta desafios de financiamento adicional por parte de órgãos estaduais e federais, um obstáculo comum para programas desse tipo, segundo Alex Kwasinski, engenheiro especializado em microgrids e desastres. A seleção dos locais prioriza áreas de alta necessidade e com potencial para atender populações vulneráveis, buscando uma abordagem equitativa na distribuição desses recursos. A meta é que esses hubs possam manter alimentos e medicamentos refrigerados, comunicações ativas e oferecer abrigo seguro durante eventos extremos, mitigando os impactos mais severos em comunidades já fragilizadas.
Comunicação sem Rede: O Poder do Rádio Amador
Durante o furacão Helene, a falha generalizada das redes de telefonia celular e internet deixou muitos moradores isolados. Em resposta, o serviço de rádio GMRS (General Mobile Radio Service) experimentou um aumento de 130% em licenças no ano seguinte à tempestade. William Walker, um entusiasta de rádio amador, organiza semanalmente um "net" (uma reunião virtual via rádio) que conecta dezenas de ouvintes, transformando um hobby em um serviço público essencial. Esses encontros não apenas mantêm as pessoas conectadas, mas também servem como um simulado prático para garantir que os equipamentos estejam funcionando e que os usuários superem o receio de usar os rádios.
Justin Hamel, da WNC Radio Project, vivenciou a importância do GMRS ao distribuir rádios "bubble radios" para vizinhos durante a crise. Apesar de algumas limitações de sinal em áreas montanhosas, a comunicação ad hoc permitiu o compartilhamento de informações sobre suprimentos e esforços de limpeza, e até auxiliou no repasse de dados para equipes de resgate. Inspirado, Hamel fundou a WNC Radio Project, uma organização sem fins lucrativos que promove o uso da tecnologia e expande seu alcance através da instalação de repetidores de sinal em montanhas. Essa rede permite a comunicação entre múltiplos condados, funcionando como uma infraestrutura de comunicação alternativa e robusta, capaz de facilitar a comunicação instantânea e em grupo em situações de emergência.
Ferramentas e Habilidades: Capacitação para a Resiliência
A necessidade de lidar com os destroços deixados pelo furacão Helene impulsionou um interesse renovado em ferramentas e habilidades práticas. Shelby Treichler, coordenadora operacional da Asheville Tool Library, relata ter sido bloqueada por uma árvore caída após a tempestade, mas foi auxiliada por um desconhecido com uma motosserra. Essa experiência, comum na região, inspirou iniciativas como a criação de "brigadas de motosserras" voluntárias e workshops de segurança para o uso dessas ferramentas. A Skills Academy for Women, liderada por Quetzal Jordan, já capacitou mais de 500 pessoas no manejo de motosserras, com um foco especial em públicos mais velhos, que experimentam uma transformação notável ao adquirir essas habilidades.
A Asheville Tool Library, que empresta mais de 4.000 ferramentas, incluindo serras, pás e geradores, também oferece treinamento em seu uso. A experiência com Helene reforçou a percepção de que o acesso a ferramentas e o conhecimento para utilizá-las são componentes cruciais da resiliência climática. A urgência em adquirir essas competências tornou-se palpável, transformando a maneira como as comunidades encaram a preparação para desastres, indo além da infraestrutura para abranger o capital humano e as capacidades individuais e coletivas.
Inclusão e Acessibilidade no Planejamento de Emergências
O furacão Helene também expôs as vulnerabilidades específicas de populações com necessidades médicas e deficiências. Walter Davis, morador de Swannanoa com múltiplas deficiências e mobilidade restrita, dependeu de vizinhos para obter água e suprimentos essenciais durante semanas de interrupção de serviços básicos. A falta de acesso a mercados próximos e a dependência de transporte para muitos moradores ressaltaram a necessidade de um planejamento de emergência mais inclusivo. Dados indicam que pessoas com deficiências são desproporcionalmente afetadas por desastres, com taxas mais altas de deslocamento e insegurança alimentar.
Em resposta a essas lacunas, surgiu a Swannanoa Communities Together, uma organização que apoia moradores com necessidades médicas e de acessibilidade. O grupo atua auxiliando na navegação de programas de assistência, como a FEMA, e na obtenção de suprimentos médicos. Com planos de renovar um espaço físico para torná-lo acessível, com banheiros adaptados e rampas, a organização visa criar um centro de resposta a emergências comunitário. A iniciativa busca garantir que, em futuros desastres, as necessidades de todos os membros da comunidade, especialmente os mais vulneráveis, sejam consideradas e atendidas de forma eficaz e digna.
Os esforços em curso no oeste da Carolina do Norte, impulsionados pelas lições amargas do furacão Helene, demonstram uma transição de uma mentalidade reativa para uma abordagem proativa na gestão de riscos climáticos. A combinação de infraestrutura física, como microgrids solares, e o fortalecimento do capital social e das habilidades individuais, aponta para um modelo de resiliência comunitária mais robusto e inclusivo. A questão agora é como sustentar e expandir essas iniciativas, garantindo que a preparação se torne uma constante, e não apenas uma resposta a tragédias passadas. Com reportagem de Brazil Valley
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