A região da Catalunha, na Espanha, deu um passo significativo ao anunciar sua intenção de proibir o uso de inteligência artificial (IA) em escolas. A decisão, ainda em fase de proposta, faz parte de um plano mais amplo de "bem-estar digital" para menores de 16 anos e se alinha a um movimento crescente em toda a Europa que busca impor restrições ao uso de tecnologias emergentes no ambiente educacional.
Esta iniciativa catalã não é um caso isolado. Em janeiro de 2023, Nova York chegou a vetar o uso de ChatGPT em suas escolas, embora tenha revertido a proibição meses depois, reconhecendo que o medo inicial foi "reflexo". Desde então, a relação entre sistemas educacionais e chatbots tem sido marcada por movimentos erráticos de regulação. A Catalunha, que inicialmente publicou orientações para incorporar a IA em 2024, agora propõe uma proibição total para alunos de até 14 anos. Essa mudança de rumo sublinha a dificuldade em estabelecer políticas educacionais estáveis diante da rápida evolução da tecnologia.
A onda regulatória na Europa
A proibição proposta na Catalunha, que também contempla restrições a redes sociais, veto a celulares e retorno a livros de texto em papel, espelha uma tendência observada em outros países europeus. A Noruega, por exemplo, recomendou em junho não usar IA para crianças entre 6 e 13 anos, argumentando que a tecnologia pode levar os alunos a "pular etapas cruciais" no aprendizado. A Itália, por sua vez, exige desde outubro de 2025 o consentimento parental para menores de 14 anos utilizarem IA. Esses movimentos indicam uma cautela generalizada em relação aos efeitos da IA no desenvolvimento cognitivo e na aquisição de conhecimento pelos jovens.
O debate sobre o impacto da IA no aprendizado
Estudos recentes têm lançado luz sobre os efeitos ambíguos da IA no desempenho estudantil. Uma pesquisa com cerca de mil alunos de bacharelado na Turquia, ao dar acesso irrestrito ao GPT-4, mostrou um aumento de 48% no desempenho em exercícios práticos, mas uma queda de 17% em exames padronizados sem acesso à ferramenta. Esse padrão se repete em outros locais, como a China, onde o uso de um "tutor IA" específico melhorou significativamente a prática dos alunos, sem prejudicar o desempenho em exames. A conclusão preliminar é que a ferramenta pode tanto alavancar quanto prejudicar o aprendizado, dependendo da forma como é utilizada – e a sociedade ainda não dominou o uso ideal.
Implicações para o sistema educacional
A "febre regulatória" em torno da IA nas escolas reflete, em parte, a busca por controle e a incerteza sobre como integrar efetivamente essas ferramentas. Na Catalunha, a decisão de proibir a IA pode ser vista também em um contexto de busca por recuperar a confiança após a exclusão dos alunos catalães do PISA. Internacionalmente, a tendência aponta para a necessidade de regulamentação antecipada, em vez de esperar que os sistemas educacionais aprendam a gerenciar a tecnologia por conta própria. A experiência de Nova York, com sua proibição temporária, sugere que a avaliação profunda e a busca por um equilíbrio são essenciais.
Perguntas em aberto e o futuro da IA nas escolas
O debate sobre a IA na educação está longe de terminar. A questão central não é se a tecnologia será proibida, mas como encontrar um equilíbrio que permita aproveitar seus benefícios sem comprometer o desenvolvimento humano e a qualidade do aprendizado. A experiência chinesa, com o uso de tutores de IA adaptados, sugere que o futuro pode residir em ferramentas que complementam, em vez de substituir, a interação humana e o esforço cognitivo. A avaliação contínua e a adaptação das políticas educacionais serão cruciais para navegar neste cenário em constante mudança.
A incerteza sobre os efeitos a longo prazo da IA no aprendizado e no desenvolvimento social dos alunos continua a alimentar o debate. A busca por um marco regulatório que proteja os estudantes, ao mesmo tempo que fomenta a inovação, é um desafio global que exigirá colaboração e evidências concretas. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





