A proliferação desenfreada de data centers para sustentar a demanda de modelos de Inteligência Artificial trouxe um efeito colateral inesperado: a elevação direta das temperaturas em áreas residenciais vizinhas. Um estudo publicado na revista da Sociedade Estadounidense de Ingenieros Mecánicos (ASME), conduzido por pesquisadores da Universidade de Arizona, apresentou a primeira evidência de campo de que essas instalações alteram o microclima urbano ao expulsar volumes massivos de calor residual para o ambiente.

Segundo a reportagem do La Nación, a investigação utilizou medições em campo na região metropolitana de Phoenix para identificar um aquecimento de até 2,2 °C em zonas situadas a sotavento das infraestruturas. O fenômeno ocorre porque os sistemas de condensação liberam ar a temperaturas que frequentemente superam os 50 °C, criando colunas térmicas que se propagam por centenas de metros e agravam o efeito de ilhas de calor nas cidades.

O novo desafio da infraestrutura térmica urbana

Historicamente, o debate sobre a sustentabilidade dos data centers concentrou-se quase exclusivamente no consumo desenfreado de energia elétrica e água. Com a projeção da Agência Internacional de Energia de que a demanda elétrica do setor pode atingir 945 TWh anuais até 2030, a eficiência energética tornou-se uma métrica de sobrevivência para hyperscalers como Microsoft, Google e Meta.

No entanto, a nova evidência de que essas estruturas funcionam como radiadores gigantes em áreas densamente povoadas desloca o foco para o planejamento urbano. A densidade de calor por metro quadrado liberada por um campus de 169 MW, por exemplo, supera largamente outras fontes urbanas, exigindo que reguladores comecem a tratar o calor residual como um poluente térmico que exige gestão rigorosa.

Mecanismos de transferência de calor

O mecanismo por trás do aquecimento reside nos sistemas de resfriamento por ar. As instalações operam com condensadores que expelem ar de 8 a 14 °C acima da temperatura ambiente, com velocidades de fluxo que facilitam a dispersão do calor sobre habitações próximas. Esse processo cria um risco térmico anteriormente negligenciado pela engenharia civil e pelo zoneamento urbano.

A dinâmica é simples, mas severa: o ar é forçado para fora das unidades de resfriamento e transportado pelo vento em direção às áreas habitadas. Em verões extremos, como os observados em Phoenix, a convergência entre a necessidade de resfriamento dos servidores e a temperatura externa cria um ciclo de feedback térmico que prejudica diretamente o conforto e a saúde de quem vive no entorno dessas plantas industriais.

Implicações para o planejamento e regulação

O desafio para as autoridades municipais é duplo: conciliar a necessidade de infraestrutura digital com a habitabilidade das cidades. A ausência de normas específicas de ventilação e dissipação térmica para data centers em zonas residenciais deixa um vácuo regulatório que as empresas têm explorado sem a devida compensação ambiental para as comunidades locais.

Paralelamente, o setor começa a olhar para modelos europeus de cogeração. Projetos em cidades como Espoo, na Finlândia, demonstram que o calor residual não precisa ser um desperdício ambiental, mas sim uma fonte de energia para sistemas de calefação urbana. A transição para sistemas de refrigeração líquida e a integração com redes inteligentes de energia surgem como caminhos técnicos indispensáveis para mitigar o impacto térmico.

O futuro das instalações digitais

O que permanece incerto é a disposição das grandes empresas de tecnologia em investir na reestruturação arquitetônica de seus campus para reduzir a pegada térmica. Embora a campanha de medição da Universidade de Arizona tenha sido inicial, ela estabelece um precedente jurídico e técnico que pode forçar mudanças no licenciamento dessas obras.

Observar como cidades em climas quentes adaptarão suas leis de zoneamento será fundamental nos próximos anos. A questão deixa de ser apenas sobre onde colocar um servidor, mas sobre como integrar a infraestrutura de dados ao tecido urbano sem transformar bairros em zonas de calor insustentáveis.

O debate sobre a expansão da IA agora ganha uma dimensão física inegável. A eficiência dos modelos algorítmicos não pode ser dissociada do custo ambiental que a infraestrutura impõe às cidades que abrigam os racks de processamento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología