Centros de dados, essenciais para a era digital e cada vez mais demandados pela inteligência artificial, geram uma quantidade colossal de calor residual. Essa energia, antes vista como um subproduto a ser dissipado, está emergindo como uma promissora fonte de aquecimento urbano, com empresas apostando em modelos de negócios que oferecem calor "quase grátis". No entanto, a viabilidade e a atratividade financeira dessa solução dependem de uma análise cuidadosa dos custos e da infraestrutura necessária.

O princípio é simples: servidores e equipamentos de computação consomem eletricidade para processar dados, e uma parte significativa dessa energia é convertida em calor. Os centros de dados operam 24 horas por dia, exigindo sistemas de refrigeração contínuos para evitar o superaquecimento. Essa produção constante de calor, que antes representava um desafio logístico e ambiental, agora é vista como um recurso valioso. A proposta é capturar esse calor e utilizá-lo para aquecer edifícios residenciais, comerciais ou industriais, reduzindo a necessidade de fontes de energia convencionais para aquecimento.

O Modelo Dinamarquês e os Desafios da "Gratuidade"

Um dos casos de referência é o centro de dados da Meta na cidade de Odense, Dinamarca. Segundo reportagens, a instalação cede anualmente cerca de 165.000 MWh de calor para a rede urbana local, o suficiente para aquecer aproximadamente 9.000 lares. O sistema envolve direcionar o ar quente dos servidores para serpentinas de água, que aquecem o fluido. Essa água, inicialmente em temperatura moderada, é então processada por bombas de calor elétricas em uma central adjacente para atingir os 70-75 °C necessários para a rede de aquecimento urbano. A infraestrutura, com cerca de 45 MW de capacidade, é considerada a maior de seu tipo na Dinamarca e beneficia-se de sua localização estratégica dentro da rede de distribuição, garantindo que o calor tenha para onde ir.

Contudo, a promessa de "calor grátis" vem com ressalvas importantes. Primeiro, as bombas de calor elétricas consomem sua própria eletricidade, e os detalhes sobre essa demanda energética não são totalmente transparentes, dificultando o cálculo exato da economia real em comparação com caldeiras tradicionais. Segundo, as projeções de capacidade e o número de lares atendidos variaram ao longo do tempo, levantando questões sobre a metodologia de contagem e a consistência das estimativas. Além disso, um teto legal sobre o preço do calor excedente na Dinamarca, que antes impedia a rentabilização das instalações, foi recentemente eliminado. Embora isso possa abrir caminho para uma precificação mais flexível, não há garantia de que os consumidores finais verão uma redução significativa nas contas de aquecimento.

Hotta: Empreendedorismo em Soria

Na Espanha, a startup Hotta (anteriormente Therminer) busca replicar esse modelo, com uma história que começou em um "garagem" – no caso, um servidor em um porão em Cabrejas del Pinar. Fundada em 2021, a empresa utiliza refrigeração líquida para capturar o calor dos servidores e transformá-lo em água quente e calefação. O modelo de negócio é oferecido como "infraestrutura como serviço", eliminando o investimento inicial para o cliente, que assina um contrato de compra de calor. A Hotta já atende a comunidades de vizinhos, indústrias e piscinas comerciais, e estima uma economia de 35% a 40% em comparação com caldeiras tradicionais. Entre seus investidores estão nomes como Domusa Teknik, Mondragon e Fluidra Ventures.

O potencial é vislumbrado em projetos futuros, como o centro de dados da Segurança Social em Soria, que poderia ter sua energia térmica aproveitada para aquecer a cidade. A ideia de transformar centros de dados em verdadeiras centrais térmicas urbanas ganha força, especialmente em locais com redes de aquecimento já estabelecidas, como Soria.

Limitações e o Futuro do Calor Residual

No entanto, a viabilidade dessa solução não é universal. A proximidade entre o centro de dados e a demanda por calor é crucial; centros de dados isolados, mesmo que eficientes na recuperação de calor, não podem suprir cidades distantes. Além disso, a recuperação de calor melhora a eficiência energética geral, mas não diminui o consumo elétrico fundamental dos servidores. Países como a Dinamarca, com uma forte infraestrutura de aquecimento urbano e uma política favorável, estão em vantagem. Na Espanha, a menor prevalência de redes de aquecimento centralizadas pode ser um obstáculo, embora cidades como Soria apresentem um cenário mais promissor.

A promessa de "quase grátis" refere-se à matéria-prima – o calor residual –, mas o custo final para o consumidor dependerá da eficiência do sistema de recuperação, do consumo elétrico das bombas de calor e da infraestrutura de distribuição. A transição para o aquecimento urbano a partir de centros de dados é uma tendência com potencial, mas que exige transparência nos custos e investimentos estratégicos em infraestrutura para se tornar uma realidade em larga escala e verdadeiramente econômica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka