A inteligência artificial (IA) está rapidamente se tornando uma ferramenta ubíqua em diversos setores, e a saúde não é exceção. No entanto, a CEO da Centene, Sarah London, em entrevista à Fortune, aponta para uma visão mais ambiciosa do que a simples otimização de processos. Segundo ela, a maior oportunidade da IA na área da saúde não reside em automatizar tarefas administrativas ou agilizar o faturamento, mas sim em mudar fundamentalmente como os cuidados são entregues e quem pode acessá-los.

London argumenta que muitas das aplicações de IA atualmente em larga escala na saúde se concentram no que ela chama de "casos de uso inflacionários". Essas ferramentas, embora possam aumentar a receita em um sistema de pagamento por serviço, não abordam a raiz do problema do alto custo da assistência médica. A automação de faturamento e a otimização de documentos, por exemplo, podem gerar mais receita para os provedores, mas não necessariamente tornam os cuidados mais acessíveis ou baratos para os pacientes.

A Centene, uma gigante do setor com 26 milhões de membros e planos de Medicaid em 29 estados, atende a populações frequentemente marginalizadas e com necessidades complexas. London vê a IA como um meio de empoderar essas comunidades, abordando duas frentes principais. A primeira é a descentralização do atendimento, levando-o para mais perto das pessoas, especialmente em áreas rurais com escassez de serviços médicos. Nesses locais, a IA poderia auxiliar agentes de saúde comunitários a gerenciar problemas não urgentes localmente, evitando assim a sobrecarga das emergências hospitalares.

A segunda oportunidade reside em dar aos pacientes maior controle sobre suas próprias jornadas de saúde. Ferramentas interativas impulsionadas por IA poderiam capacitar indivíduos a tomar decisões iniciais sobre suas preocupações médicas sem a necessidade imediata de uma consulta clínica. Essa abordagem, segundo London, é o caminho para "curvar a curva de custos", tornando o sistema mais eficiente e centrado no paciente.

Isso não significa que a automação administrativa seja irrelevante. Pelo contrário, London observa que cada dólar economizado em tarefas administrativas pode ser redirecionado para melhorar os benefícios oferecidos aos pacientes. O desafio para os diretores financeiros da área da saúde é discernir entre ferramentas de IA que apenas aceleram o faturamento e aquelas que realmente melhoram o acesso e a qualidade do atendimento, alterando a dinâmica econômica do setor.

A questão fundamental para o futuro da IA na saúde, portanto, transcende a capacidade de fazer mais. Trata-se de fazer melhor, gastando menos, e garantindo que a inovação beneficie os mais necessitados. A jornada para essa transformação ainda está em seus estágios iniciais, com muitos questionamentos sobre como implementar efetivamente essas soluções.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune