O hábito de leitura intensa e o aprofundamento em textos complexos sempre foram marcas registradas de líderes empresariais de sucesso. Figuras como Bill Gates e Warren Buffett dedicavam horas diárias à leitura e reflexão, entendendo o conhecimento como um ativo que cresce com o tempo, tal qual juros compostos. Contudo, uma nova geração de executivos está optando por atalhos, delegando a inteligência artificial (IA) tarefas como a sumarização de relatórios, a redação de e-mails e até a comunicação em seu nome. Uma pesquisa recente indica que mais de dois terços dos líderes nos EUA e Reino Unido utilizam IA para resumir documentos, e mais da metade a emprega para redigir e-mails.

Executivos de peso como Ryan Roslansky, CEO do LinkedIn, e Satya Nadella, da Microsoft, já declararam depender de ferramentas de IA para gerenciar suas caixas de entrada e se preparar para reuniões. Mark Zuckerberg, do Meta, estaria desenvolvendo um clone de IA para replicar seu tom e responder a funcionários. A praticidade oferecida pela IA é inegável para CEOs sobrecarregados, que lidam com um fluxo constante de demandas. David Meadvin, consultor executivo, reconhece a utilidade de sumarizar informações, comparando o processo a resumos feitos por assistentes no passado. No entanto, ele alerta que a IA, sendo "confiavelmente medíocre", pode acabar por "diluir o brilho" das comunicações originais.

A Crise de Comunicação no C-suite

David Shelley, CEO da Hachette, vai além, prevendo uma "crise de comunicação" para líderes que se apoiam excessivamente na IA. Ele antecipa uma "crescente dissonância entre como alguém aparece em suas declarações escritas e como é na vida real". Essa desconexão pode ser particularmente prejudicial em um momento em que os funcionários esperam que seus líderes unam a força de trabalho. O Edelman Trust Barometer de 2026 revelou que, embora 73% dos funcionários acreditem que CEOs têm a obrigação de construir confiança, apenas 44% sentem que seus líderes estão cumprindo bem essa função. Shelley enfatiza a importância de um CEO ser capaz de escrever um bom e-mail pessoalmente, mesmo reconhecendo que uma equipe de comunicação ou IA poderia torná-lo mais polido. Ele reluta em perder a "qualidade humana" em sua escrita.

Natalie Sutton, consultora de comunicação e coach executiva, corrobora essa visão, afirmando que os funcionários rapidamente identificam mensagens que não soam autênticas. "A fluência está se tornando barata. A sinceridade está se tornando escassa", diz ela. "Uma mensagem levemente imperfeita que claramente veio do CEO superará uma impecável que poderia ter vindo de qualquer um." Shelley também expressa preocupação de que a terceirização para IA possa diminuir os instintos de um líder. "Ser um líder, muitas vezes, é ter que pensar rapidamente", ele observa. Depender de IA e de outras pessoas para se comunicar, segundo ele, "embota o cérebro".

O Mecanismo do "Cognitive Offloading"

Estudos já associaram a dependência excessiva de IA a um enfraquecimento do pensamento crítico, um fenômeno conhecido como "cognitive offloading" ou descarregamento cognitivo. Uma pesquisa do MIT Media Lab em 2025 mostrou que participantes que escreveram ensaios com o auxílio do ChatGPT apresentaram o menor engajamento cerebral e tiveram dificuldade em citar o conteúdo de seus próprios textos. "Se a IA faz o primeiro rascunho, os líderes pulam a parte em que eles descobrem o que realmente pensam", explica Sutton. "Quando a informação chega pré-digerida, você perde o hábito de sentar com algo complexo tempo suficiente para entendê-lo. Preocupa-me que teremos uma geração de executivos que podem aprovar uma mensagem, mas não podem construí-la."

Implicações para a Liderança e a Sociedade

Como líder de uma das maiores editoras do mundo, Shelley acredita que a IA está acelerando o declínio da leitura por prazer. Um relatório da JPMorgan destaca a leitura como o hábito mais citado entre bilionários. Pesquisas no Reino Unido indicam que distrações dificultam a concentração na leitura para quase metade dos adultos, com 19% sentindo que sua capacidade de concentração piorou nos últimos três anos. Shelley argumenta que a IA intensifica essa tendência ao mudar a forma como as pessoas consomem e compartilham informações, "treinando-nos a querer apenas atalhos". Isso coloca em risco habilidades cruciais como seguir um argumento complexo, ponderar visões concorrentes ou desenvolver um ponto de vista coerente. "Um dos atributos chave de grandes líderes é a curiosidade intelectual e a empatia", afirma Shelley, alertando que a perda dessas qualidades resultará em um "C-suite pior".

Perguntas em Aberto e o Futuro

A capacidade de "ler a sala" e compreender diferentes perspectivas é fundamental para a liderança. Psicólogos David Kidd e Emanuele Castano descobriram que a leitura de ficção literária pode aprimorar a capacidade de interpretar as emoções alheias. Embora alguns líderes argumentem que a IA pode, paradoxalmente, tornar essas habilidades humanas ainda mais valiosas — prevendo um renascimento das "soft skills" à medida que a tecnologia assume tarefas repetitivas —, a preocupação de Shelley permanece. Daniela Amodei, presidente da Anthropic, sugere que, com a IA avançando em áreas técnicas (STEM), qualidades como inteligência emocional, comunicação e curiosidade ganham ainda mais destaque. Meadvin, por sua vez, usa a leitura para expandir suas perspectivas e cuidar da saúde mental, ressaltando que, em meio à disrupção constante, "manter-se à frente depende de autoconsciência e compromisso com o aprendizado contínuo".

A aparente conveniência da IA como atalho para executivos ocupados pode, em última instância, enfraquecer as competências essenciais para uma liderança eficaz e profunda. A questão que fica é se os benefícios de eficiência da IA superarão os custos ocultos na qualidade do pensamento e da comunicação executiva.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune