Diogo Corona, CEO do Grupo Smart Fit (SMFT3), expressou uma visão sombria sobre o atual cenário do varejo brasileiro, atribuindo a dificuldade de empreender e a "quebra" de redes à taxa de juros próxima a 15%. Em entrevista ao Money Times, Corona, que assumiu a liderança da companhia há oito meses, destacou os juros elevados como o principal fator externo que impacta o setor.
O executivo argumenta que, com juros nesse patamar, qualquer investimento precisa gerar um retorno superior a essa taxa para ser considerado viável. Essa exigência torna a operação e a expansão extremamente desafiadoras para empresas varejistas, que frequentemente operam com margens mais apertadas e dependem de capital para crescimento. A declaração de Corona reflete uma preocupação generalizada no mercado sobre os efeitos da política monetária restritiva na atividade econômica e no empreendedorismo no país.
O Peso dos Juros no Varejo
Segundo Corona, a lógica por trás do impacto dos juros elevados é dupla. Do lado das empresas, o custo do capital se eleva, exigindo maior rentabilidade para justificar novos investimentos e demandando uma gestão de dívidas mais cautelosa. Para o consumidor, o endividamento crescente restringe a renda disponível para gastos considerados não essenciais, como serviços de academias e outros produtos e serviços do varejo. "Eu não me lembro de ter visto o varejo sofrendo tanto. Cada vez que a gente abre o jornal, vê uma rede quebrando", disse Corona, ressaltando a gravidade da situação.
A Smart Fit, que opera um modelo de negócios diversificado que vai além das academias tradicionais – incluindo estúdios próprios e o agregador TotalPass –, sente os efeitos dessa conjuntura. A expansão da empresa, inclusive para mercados internacionais como a Venezuela, tem sido conduzida com um pragmatismo ditado pelo cenário macroeconômico. A entrada na Venezuela, por exemplo, que preencheu uma lacuna geográfica no mapa da companhia, foi realizada por meio do modelo de franquias. Essa escolha visa mitigar o risco de capital em um ambiente ainda considerado de alto risco, apesar de uma percepção de melhora econômica e entrada de capital estrangeiro no país.
Transformação em Ecossistema
Diogo Corona assumiu a liderança com o desafio de transformar a Smart Fit de uma rede de academias em um ecossistema mais amplo, englobando bem-estar e atividades físicas diversas. Essa estratégia envolve a operação em múltiplos modelos – unidades próprias, franquias, estúdios com outras modalidades e o TotalPass – que variam de acordo com o mercado. No Brasil, por exemplo, a empresa adota um modelo misto, combinando operações próprias, franquias, marcas próprias e o TotalPass, devido ao tamanho e complexidade do mercado. Em países menores, o modelo de franquia exclusiva é preferido, enquanto países médios podem ter operações 100% próprias. Essa flexibilidade operacional é crucial para navegar em diferentes ambientes econômicos e regulatórios.
A estratégia de ecossistema se alinha com a crescente tendência global de "era wellness", impulsionada pela busca por bem-estar, atividades físicas e saúde. Embora a pandemia tenha acelerado essa percepção, Corona observa que a tendência de preocupação com saúde e atividade física já vinha crescendo há mais de duas décadas. A maturação do setor fitness também gera demandas mais sofisticadas por modalidades e produtos específicos, o que a Smart Fit busca atender com sua expansão e aquisições estratégicas.
Competitividade e Expansão Global
Apesar das oportunidades apresentadas pelo mercado de bem-estar, a competitividade no setor fitness é acirrada. A Smart Fit enfrenta concorrência de grandes redes como Bodytech e Panobianco, além de agregadores como o WellHub. A expansão para 17 países, incluindo a recente entrada na Venezuela, demonstra a ambição global da empresa. No entanto, a escolha do modelo de entrada em cada país é cuidadosamente ponderada, levando em conta o tamanho do mercado, o ambiente macroeconômico e geopolítico, e o nível de risco. A decisão de entrar na Venezuela via franquias, apesar de uma perspectiva econômica positiva, reflete a cautela necessária em mercados voláteis.
O Futuro do Varejo e da Smart Fit
O cenário de juros altos e a consequente inviabilidade percebida para o varejo no Brasil levantam questões importantes sobre o futuro do setor e a capacidade das empresas de inovar e crescer. Para a Smart Fit, a estratégia de diversificação e a expansão global, aliadas a uma gestão de risco prudente, parecem ser os pilares para navegar em um ambiente econômico desafiador. A transformação em um ecossistema de bem-estar, que vai além da oferta de academias, pode ser a chave para manter a relevância e a rentabilidade em um mercado em constante evolução. A capacidade da empresa de executar essa visão em diferentes geografias e modelos operacionais será crucial para seu sucesso futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times




