O mercado financeiro, em sua essência, não se pauta por alinhamentos políticos, mas sim pela clareza e concretude das propostas econômicas. Essa é a visão defendida por Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco, em recente coletiva de imprensa sobre os resultados do terceiro trimestre do banco. Para Maluhy Filho, a incerteza atual exige cautela dos investidores, e um ambiente com maior definição e previsibilidade é crucial para a retomada e o aquecimento do mercado de capitais.

A Vontade do Mercado e a Busca por Previsibilidade

A declaração do CEO do Itaú Unibanco reflete uma dinâmica fundamental dos mercados: a busca por segurança e previsibilidade. Em um cenário global e local marcado por volatilidade, especialmente em juros e câmbio, os investidores tendem a se retrair ou a buscar ativos com menor risco. A ausência de um "partido" político por parte do mercado significa que a confiança é construída sobre alicerces sólidos de gestão fiscal responsável e políticas sociais que não comprometam a sustentabilidade econômica. A perseguição ao grau de investimento, citada por Maluhy Filho como um objetivo para a nova gestão governamental, exemplifica essa necessidade de sinalizar compromisso com a solidez econômica a longo prazo. A inflação, conforme alertado pelo executivo, é um "imposto regressivo" que corrói o poder de compra, e o controle dos juros é a principal ferramenta para mantê-la sob controle, beneficiando todos os tomadores de crédito, em especial as famílias.

Cenário Macroeconômico e a Resiliência do Itaú

Maluhy Filho projetou um cenário macroeconômico mais desafiador para 2027, indicando que as condições econômicas tendem a se deteriorar. No entanto, ele assegurou que o Itaú Unibanco está preparado para enfrentar essas adversidades. A estratégia do banco para garantir a resiliência de seus resultados financeiros tem se concentrado em adequar o acesso ao crédito à capacidade de pagamento dos clientes, com particular atenção à pessoa física. Com uma carteira de crédito de R$ 1,5 trilhão no Brasil, o foco em clientes mais resilientes e produtos adaptados ao varejo tem sido um diferencial. Essa abordagem prudente permite ao banco navegar em um ambiente macroeconômico instável, mitigando riscos e mantendo a qualidade de seus ativos, mesmo diante de uma carteira de crédito robusta.

Disciplina de Custos e Eficiência Operacional

Diante de um cenário macroeconômico desafiador, a gestão de custos emerge como um dos poucos vetores de controle direto para a instituição financeira. Maluhy Filho destacou que o banco não depende de uma "alavanca específica" para resolver problemas de custo, mas sim de um programa abrangente de eficiência. Este programa envolve priorização estratégica, renúncias pontuais, investimento em tecnologia e um processo contínuo de transformação. A "disciplina" na gestão de despesas é, portanto, um pilar central da estratégia do Itaú para manter sua competitividade e rentabilidade. A busca incessante por otimização de processos e redução de desperdícios é fundamental para que o banco possa continuar a entregar resultados sólidos e a se adaptar às flutuações do mercado, mesmo em um contexto de juros elevados e inflação persistente, que penalizam o poder de compra e exigem cautela na concessão de crédito.

Perguntas em Aberto e o Caminho à Frente

As projeções de Maluhy Filho para 2027 levantam questões importantes sobre a capacidade do país em reverter um quadro macroeconômico potencialmente adverso. A articulação entre as políticas fiscal e social, mencionada como ponto central, será crucial para mitigar a inflação e garantir a estabilidade cambial. Resta saber se as propostas concretas que o mercado tanto anseia serão implementadas de forma consistente e eficaz para restaurar a confiança e impulsionar o crescimento sustentável. A forma como o governo e o setor privado colaborarão para enfrentar esses desafios definirá o futuro da economia brasileira nos próximos anos, impactando diretamente as decisões de investimento e a trajetória de instituições financeiras como o Itaú Unibanco.

As declarações do CEO do Itaú Unibanco reforçam a tese de que, no mundo dos negócios, a política é secundária quando comparada à solidez das propostas econômicas e à previsibilidade. O mercado, ao que tudo indica, continuará a demandar clareza fiscal e social, e a capacidade das instituições financeiras de se adaptarem a cenários desafiadores será determinante para seu sucesso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney