A cúpula das principais organizações patronais da Espanha, a CEOE e a Cepyme, subiu o tom contra a gestão econômica do governo central. Durante a Assembleia Geral da Cepyme realizada em Madri, os presidentes Antonio Garamendi e Ángela de Miguel descreveram um cenário de asfixia regulatória que, segundo eles, tem provocado o fechamento de 25 mil microempresas desde a pandemia.

O diagnóstico conjunto destaca que o excesso de exigências burocráticas e a instabilidade institucional criam um ambiente de insegurança para o empreendedor. Segundo a reportagem da Forbes España, os líderes patronais exigem uma mudança de postura para restaurar a confiança no mercado e frear a deterioração do diálogo social no país.

O peso da burocracia sobre as microempresas

Ángela de Miguel argumentou que as microempresas, especialmente aquelas com menos de três trabalhadores, enfrentam uma carga administrativa desproporcional. A necessidade de cumprir mais de 3.000 normas diárias impõe um custo operacional que pequenos estabelecimentos, como comércios de bairro e oficinas, não possuem estrutura para absorver. Ao contrário das grandes corporações, essas empresas carecem de departamentos jurídicos ou financeiros dedicados ao 'reporting' exigido pelo Estado.

Essa sobrecarga é vista como um fator que desestimula a atividade econômica e a geração de empregos. A defesa das entidades é pela aplicação do princípio 'Think Small First' (pense pequeno primeiro), sugerindo que a legislação deveria ser desenhada considerando a capacidade operacional dos menores negócios, em vez de replicar as exigências impostas a multinacionais.

A erosão do diálogo social e o custo laboral

Antonio Garamendi criticou duramente a atuação do Ministério do Trabalho, classificando a gestão atual como um 'monólogo social'. O presidente da CEOE apontou que, desde a reforma laboral, o texto foi modificado unilateralmente em 61 ocasiões, sem o consenso tripartite esperado. Esse movimento, segundo a patronal, compromete a paz social necessária para o funcionamento das empresas.

Além disso, o custo real de contratação tem se tornado um entrave. De acordo com os dados apresentados, enquanto um funcionário recebe cerca de 1.200 euros líquidos, o custo total para o empregador chega a 1.900 euros devido aos encargos. Esse incremento de 27% nos custos laborais nos últimos anos tem forçado as microempresas a reduzir contratações, tornando o processo de expansão do quadro de funcionários ineficiente.

Impactos na produtividade e absentismo

O absentismo laboral foi identificado como um dos problemas estruturais mais graves, custando cerca de 33 bilhões de euros anuais à economia espanhola, dos quais 17 bilhões recaem diretamente sobre as empresas. Garamendi enfatizou que a falta de 1,2 milhão de trabalhadores por dia é um 'drama' que exige medidas urgentes, como a colaboração de mutuas com o sistema público de saúde para agilizar diagnósticos e tratamentos.

A pressão fiscal também foi alvo de críticas. Com uma carga sobre as empresas de 12,3%, a Espanha supera a média europeia, o que, somado à elevada economia informal — estimada em 24% —, penaliza aqueles que operam dentro da legalidade. O cenário é agravado pela falta de relevo geracional, visto que metade das pequenas empresas é dirigida por pessoas com mais de 50 anos.

Incertezas diante da dívida pública

O futuro das empresas espanholas permanece atrelado a uma dívida pública que atingiu 1,7 trilhão de euros, com um aumento de quase 80 bilhões em apenas um ano. A ausência de um orçamento estatal claro por três anos consecutivos é vista como uma falha de gestão que impede o planejamento de longo prazo para o setor privado.

O que se observa é um impasse entre as demandas do setor produtivo e a agenda regulatória do governo. A capacidade de resistência das PMEs continuará sendo testada à medida que o ambiente regulatório se torna mais complexo e a margem de lucro das empresas se estreita sob o peso de encargos e normas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España