A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) iniciou o uso de imagens de satélite processadas por inteligência artificial para monitorar a qualidade da água nos rios Tietê e Pinheiros. O sistema, que integra o programa estadual IntegraTietê, abrange cerca de mil quilômetros de extensão, oferecendo dados visuais em um mapa interativo disponível ao público.

Essa iniciativa marca uma mudança na estratégia de fiscalização ambiental, permitindo a detecção de alterações nos níveis de poluição em intervalos muito menores do que o modelo tradicional de coleta física. Segundo a gestão estadual, a ferramenta não substitui a rede de monitoramento existente, mas atua como um mecanismo complementar para vigilância e transparência.

Inovação na vigilância ambiental

O uso de IA permite que a Cetesb processe grandes volumes de dados capturados por satélites como o Sentinel 2 e o Sentinel 3. A tecnologia identifica padrões específicos, como a presença de matéria orgânica dissolvida e processos de eutrofização, onde o excesso de nutrientes estimula a proliferação descontrolada de algas. A leitura das imagens baseia-se na interação distinta de substâncias com a luz, permitindo inferir indicadores de qualidade ambiental em tempo quase real.

Historicamente, o monitoramento dependia de coletas em pontos fixos com periodicidade mensal. A transição para o monitoramento remoto reduz significativamente o tempo de resposta, permitindo identificar variações incomuns que podem indicar despejos irregulares de efluentes industriais ou domésticos. O projeto conta com a colaboração do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para a análise científica desses fenômenos.

Mecanismos de controle e dados

O funcionamento do sistema baseia-se na combinação de fontes de dados, incluindo imagens de alta resolução fornecidas por empresas privadas e registros da Firefly. A inteligência artificial atua na automação da análise, gerando alertas quando detecta mudanças significativas nos padrões de qualidade da água. Esse fluxo de informação é estruturado para suportar ações de fiscalização mais ágeis e precisas em trechos críticos dos rios.

Do ponto de vista operacional, a Cetesb investiu em contratos que somam mais de 1 milhão de reais com empresas de tecnologia, além de um acordo de 180 mil reais com o Inpe. A expectativa é que, com a consolidação da ferramenta, o sistema seja capaz de cadastrar pontos de interesse específicos para um acompanhamento contínuo e automatizado, otimizando o uso dos recursos de fiscalização da companhia.

Implicações para o saneamento

Para o ecossistema de gestão pública, a tecnologia traz um desafio de integração entre a fiscalização remota e a infraestrutura física, que ainda compreende 550 pontos de monitoramento em todo o estado. A transparência pública, defendida pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, visa aproximar a população do processo de recuperação dos rios, transformando dados técnicos em indicadores de fácil compreensão para o cidadão.

Paralelamente, o governo estadual mantém metas de universalização do tratamento de esgoto para 2029 em municípios como Guarulhos, Franco da Rocha e Francisco Morato. O sucesso desta nova camada de monitoramento depende, em última análise, da capacidade do Estado em converter os alertas gerados pela IA em intervenções efetivas de saneamento e políticas de controle de poluição na região metropolitana.

Perspectivas de longo prazo

O modelo encontra-se em fase de consolidação, sendo que ajustes operacionais são esperados após o ciclo inicial dos contratos tecnológicos. A Cetesb busca, a longo prazo, estabelecer formatos de operação que sejam não apenas tecnologicamente avançados, mas também sustentáveis em termos de custo e manutenção.

Resta observar como a integração entre a inteligência artificial e a rede física de monitoramento reagirá a eventos climáticos extremos, que podem afetar a precisão da leitura das imagens de satélite. O avanço da transparência pública, por sua vez, coloca sob escrutínio constante as metas de despoluição, forçando uma prestação de contas mais frequente sobre o progresso dos projetos de infraestrutura hídrica.

O uso de tecnologia de ponta na gestão dos rios paulistas reflete uma tendência de digitalização do controle ambiental, onde a rapidez na detecção de danos tenta equilibrar a lentidão histórica das obras de saneamento. A eficácia dessa ferramenta será medida não apenas pela precisão dos alertas, mas pela capacidade do Estado em agir sobre os problemas identificados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital