As cenas de travessias em massa da fronteira do Marrocos para o enclave espanhol de Ceuta catalisaram uma crise que expôs as fraturas da União Europeia. A reação imediata, com 22 estados-membros criticando a Espanha em vez de confrontar o Marrocos, foi rapidamente enquadrada pela ótica tradicional de um embate entre esquerda e direita sobre imigração.
Contudo, essa leitura é superficial. Segundo uma análise aprofundada de Ines Burrell na revista Persuasion, o episódio de Ceuta não criou divisões, apenas as revelou. A verdadeira linha de falha não é ideológica, mas geográfica e histórica, separando a Europa Ocidental da Oriental. São dois continentes em um, com memórias e medos distintos, criando uma vulnerabilidade que adversários geopolíticos estão se tornando mestres em explorar.
O Ocidente e o tabu do debate
Na Europa Ocidental, décadas de prosperidade pós-guerra, aliadas a uma herança colonial, moldaram a visão sobre imigração. O multiculturalismo tornou-se um pilar da identidade liberal, e o debate sobre os seus desafios, um tabu. A análise da Persuasion argumenta que a esquerda política, em particular, fechou a porta para qualquer discussão, rotulando preocupações sobre a integração e o volume dos fluxos migratórios como racismo.
O efeito paradoxal dessa postura é o fortalecimento da direita. Cidadãos com visões moderadas, ao se verem sem espaço para um diálogo honesto sobre as transformações em suas sociedades, são empurrados para posições mais extremas. Governos liberais, sentindo a pressão, veem-se obrigados a adotar uma retórica de controle de fronteiras, muitas vezes mais performática do que efetiva. Essa recusa em debater não apenas aliena o eleitorado doméstico, mas também impede que o Ocidente compreenda a perspectiva de seus vizinhos do Leste.
O Leste e a memória do império
Para os países da Europa Oriental, a história do século XX foi radicalmente diferente. Enquanto o Ocidente vivia sua reconstrução e bonança, o Leste lutava contra o que a autora descreve como o imperialismo russo sob o disfarce do comunismo. A soberania e o conceito de um “estado nacional” são conquistas recentes e preciosas, obtidas após décadas de engenharia demográfica forçada e políticas de russificação.
Nesse contexto, ideias como “privilégio branco” ou culpa pós-colonial não encontram eco. Muitos desses povos viveram sob regime de servidão até o século XIX e, após a Segunda Guerra, sentiram-se traídos pelo Ocidente e entregues a Moscou. A desconfiança em relação a mudanças demográficas impostas de fora é profunda. Por isso, preferem contribuir com apoio financeiro ou operacional ao mecanismo de solidariedade da UE a aceitar cotas de realocação de migrantes. Para eles, o multiculturalismo imposto soa como uma nova versão de uma velha opressão.
Essa fissura fundamental é o terreno fértil para a desestabilização. A Rússia, por exemplo, instrumentaliza o fluxo de pessoas, como visto na fronteira da Polônia com Belarus, e alimenta a polarização com campanhas de desinformação que dizem a cada lado exatamente o que ele quer ouvir. O Irã contribui ao fomentar conflitos que geram refugiados, e a China oferece o suporte econômico que mantém a máquina russa funcionando. A crise em Ceuta, portanto, é menos sobre a Espanha e mais sobre a incapacidade da Europa de ter uma conversa honesta consigo mesma. Sem reconhecer suas diferentes memórias, o bloco permanece um alvo fácil, com a raiva direcionada para dentro enquanto seus adversários observam.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





