A Europa encontra-se diante de um hiato crítico entre o diagnóstico de sua dependência tecnológica e a execução de políticas capazes de reverter esse cenário. Durante o Foro Económico y Social del Mediterráneo, realizado em Barcelona, o diretor geral da Telefónica na Catalunha, Chema Casas, reforçou que o bloco europeu carece de uma "decisão firme" para concretizar sua autonomia estratégica. Segundo o executivo, o continente já dispõe de diagnósticos claros, como os relatórios de Enrico Letta e Mario Draghi, mas a inércia na implementação dessas diretrizes coloca a região em desvantagem competitiva global.
O alerta de Casas ganha peso quando analisamos a concentração do mercado de serviços de dados. Atualmente, mais de 90% das empresas que controlam essa infraestrutura essencial operam sob controle dos Estados Unidos ou da China. Para o executivo, essa dependência é estrutural e divide-se em três pilares fundamentais: a infraestrutura física, a gestão de dados e o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial. Sem uma coordenação que vá além da regulação e foque na construção de capacidades próprias, a soberania europeia permanece em um campo teórico.
O paradoxo da infraestrutura pronta
Um ponto central da análise de Casas é a comparação com a Primeira Revolução Industrial. O executivo argumenta que a Espanha, e por extensão grande parte da Europa, encontra-se em uma posição privilegiada no que diz respeito à conectividade, com a fibra óptica alcançando mais de 95% do território espanhol. É como se as "vias férreas" estivessem prontas, mas os trens — neste caso, os serviços, modelos e ecossistemas de dados — ainda não estivessem operando na escala necessária para garantir a autonomia do bloco.
Essa infraestrutura física, embora robusta, é apenas o alicerce. A falha, segundo o executivo, reside em não ter construído as capacidades de software e de inteligência artificial sobre essa rede. Enquanto a Europa se destacou na regulação do setor, a execução industrial e a criação de gigantes tecnológicas locais não acompanharam o ritmo dos investimentos observados em Washington ou Pequim, deixando a infraestrutura de telecomunicações europeia como uma mera canalização para serviços estrangeiros.
Produtividade além do corte de custos
No debate sobre a adoção de Inteligência Artificial, Casas propõe uma mudança de paradigma corporativo. O executivo observa que muitas empresas europeias têm se limitado a utilizar a IA como uma ferramenta de redução de custos e ganho de eficiência operacional. No entanto, o verdadeiro potencial da tecnologia reside na criação de novas fontes de receita e na oferta de serviços inovadores que antes eram inviáveis.
Para a Telefónica, o foco estratégico tem sido alavancar a IA para expandir o portfólio de serviços. A digitalização, quando bem aplicada, tem a capacidade comprovada de elevar a produtividade entre 15% e 25%. O desafio, portanto, é converter essa eficiência técnica em competitividade econômica. A resistência em investir em inovação disruptiva, preferindo a otimização de processos legados, é apontada como um dos fatores que impedem o setor privado europeu de liderar a próxima onda tecnológica.
Tensões entre regulação e escala
As implicações para os stakeholders europeus são profundas. Reguladores enfrentam o desafio de equilibrar a proteção de dados e a ética — pilares do modelo europeu — com a necessidade de escala que o mercado de tecnologia exige. A fragmentação do mercado europeu, frequentemente citada como um obstáculo, impede que startups locais alcancem a dimensão necessária para competir com as Big Techs americanas ou com os conglomerados estatais chineses.
Para as empresas de telecomunicações e tecnologia, o cenário exige uma postura mais agressiva de investimento em P&D e parcerias público-privadas. Se a Europa não conseguir transformar sua infraestrutura de conectividade em um ecossistema de inovação, o risco é de se tornar apenas uma consumidora de tecnologia alheia, perdendo o controle sobre os fluxos de dados que definem a soberania no século XXI.
O horizonte da autonomia estratégica
O que permanece incerto é se a vontade política europeia conseguirá se alinhar aos interesses do mercado de tecnologia. A execução de uma "decisão firme" exige não apenas capital, mas uma mudança na cultura empresarial e uma harmonização das políticas de inovação entre os Estados-membros da União Europeia.
Nos próximos anos, a capacidade de o bloco mover-se da fase de diagnóstico para a fase de implementação será o principal indicador de sua relevância no cenário global. Observar se as recomendações dos relatórios de competitividade serão traduzidas em projetos industriais concretos será fundamental para entender o futuro da autonomia tecnológica europeia.
O debate sobre a autonomia estratégica europeia transcende a mera questão econômica, tocando diretamente na segurança e na capacidade de o bloco definir suas próprias regras no ambiente digital. A transição de uma infraestrutura passiva para uma potência de dados e IA depende, em última análise, de uma convergência entre a visão institucional e a capacidade de execução do setor privado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





