A Chevron, por meio de sua subsidiária Energy Forge One, solicitou um abatimento fiscal no Texas que pode superar 227 milhões de dólares ao longo de uma década. O objetivo é financiar a construção de uma usina a gás dedicada exclusivamente a alimentar um data center, em um movimento que coloca a gigante do petróleo no centro da crescente controvérsia sobre incentivos estatais para a infraestrutura de inteligência artificial.

Embora a Microsoft seja apontada como a provável inquilina do data center, ambas as empresas mantêm cautela sobre a formalização dos termos. A proposta, que já recebeu recomendação favorável do gabinete do controlador estadual, utiliza o programa Jobs, Energy, Technology, and Innovation (JETI) do Texas, desenhado originalmente para fomentar o desenvolvimento econômico local, mas que agora enfrenta escrutínio crescente quanto à sua eficácia e transparência.

O dilema das plantas 'atrás do medidor'

A estratégia de construir usinas de energia "atrás do medidor" — que não se conectam à rede elétrica pública e servem apenas ao consumo privado — tornou-se uma tendência entre desenvolvedores de data centers que buscam contornar os longos prazos de espera para acesso à rede. Segundo dados da Global Energy Monitor, há quase 100 gigawatts de projetos de energia a gás em desenvolvimento nos Estados Unidos voltados exclusivamente para essas instalações.

Esse modelo cria uma infraestrutura paralela que, embora resolva a urgência energética das Big Techs, isola o consumo de energia da rede pública. A controvérsia reside no fato de que, enquanto a demanda por eletricidade dispara, essas plantas privadas operam com permissões de emissão de gases de efeito estufa que, em alguns casos, superam as marcas anuais de países inteiros, levantando questões sobre o custo social da transição digital.

Incentivos sob a lupa legislativa

O programa JETI, aprovado em 2023, deveria ser uma ferramenta de atração de investimentos produtivos. Contudo, críticos argumentam que os mecanismos de controle ainda são insuficientes. O histórico de programas anteriores no Texas sugere que empresas frequentemente recebem benefícios fiscais para projetos que seriam realizados independentemente do subsídio, resultando em uma transferência líquida de receita pública para o setor privado.

O impacto financeiro é expressivo. Relatórios indicam que estados americanos perdem mais de 1 bilhão de dólares anualmente em receitas devido a isenções fiscais concedidas a data centers. Diante disso, legisladores estaduais, incluindo o vice-governador do Texas, Dan Patrick, começaram a exigir estudos sobre as consequências dessas políticas, temendo que o custo para os cofres públicos supere os benefícios gerados em empregos ou arrecadação tributária.

Tensões entre compromissos públicos e práticas corporativas

A Microsoft, que se comprometeu publicamente a ser uma "boa vizinha" e pagar sua parcela justa de impostos locais, encontra-se em uma posição delicada. Especialistas em políticas públicas observam que, embora a empresa prometa não solicitar reduções de taxas imobiliárias, a adesão a projetos que buscam abatimentos fiscais indiretos através de terceiros — como a Chevron — pode ser interpretada como uma forma de contornar promessas de transparência fiscal.

A tensão entre a necessidade de expansão da capacidade computacional e a responsabilidade social corporativa é evidente. Enquanto as empresas de tecnologia buscam garantir energia barata e estável, a opinião pública começa a questionar por que o contribuinte deve subsidiar a infraestrutura de empresas que operam com margens de lucro elevadas e cujos data centers, muitas vezes, geram poucos empregos permanentes em comparação com o volume de investimento.

Perspectivas e incertezas regulatórias

O cenário futuro permanece incerto, especialmente no que tange à reforma das políticas de incentivo. A pressão por uma reestruturação do código tributário, que incentive a conexão dessas fontes de energia à rede pública em vez de isolá-las, ganha força entre especialistas em clima e infraestrutura. A questão central não é apenas o custo financeiro, mas como o planejamento energético será gerido em um mundo cada vez mais dependente de processamento de dados.

Observadores do mercado aguardam para ver se o Texas adotará salvaguardas mais rígidas para o programa JETI. A decisão sobre o projeto da Chevron servirá como um termômetro para a tolerância dos legisladores em relação a subsídios para infraestrutura de energia de alto impacto ambiental, sinalizando se a era dos incentivos irrestritos para a expansão da IA está chegando ao fim.

A disputa em torno da planta de energia da Energy Forge ilustra a complexidade de conciliar a inovação tecnológica com a sustentabilidade fiscal e ambiental, um desafio que se estende muito além das fronteiras do Texas.

Com reportagem de Brazil Valley

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