A China está traçando um ambicioso plano para se tornar líder global na produção audiovisual impulsionada por inteligência artificial generativa. Em uma estratégia que remete aos seus sucessos anteriores em setores como veículos elétricos e energia solar, o país asiático está canalizando recursos públicos, infraestrutura de computação e incentivos para empresas, visando a criação de um ecossistema robusto para a produção de filmes e séries com IA em escala industrial. O principal motor dessa transformação é a drástica redução de custos. Dados da emissora estatal CCTV indicam que o custo para produzir um minuto de um drama curto com IA caiu de cerca de 5.000 iuanes (aproximadamente US$ 747) para algumas centenas de iuanes no primeiro semestre de 2026. Produtoras que se beneficiam de subsídios governamentais locais, como computação subsidiada e isenções de aluguel, podem alcançar custos ainda menores. Um exemplo citado por estudantes de cinema ilustra essa economia: uma sequência de casamento que custaria cerca de 60.000 iuanes em produção tradicional pode ser realizada por aproximadamente 1.400 iuanes com o uso de IA.
O Mecanismo por Trás da "Nova Hollywood"
A capacidade de substituir gastos significativos com equipes, cenários, locações e efeitos visuais por geração digital pura está mudando fundamentalmente a lógica da produção audiovisual. É nesse contexto que os investimentos regionais ganham destaque. Pequim destinou um fundo de tecnologia audiovisual de 260 milhões de iuanes, enquanto Xangai oferece acesso facilitado a recursos de computação e modelos de IA na nuvem. Shenzhen, por sua vez, foca em subsídios para aluguel e suporte técnico em efeitos visuais. O objetivo comum dessas medidas é diminuir a barreira de entrada e atrair talentos e empresas para um mercado ainda em formação. Empresas chinesas de tecnologia, como ByteDance com o Seedance 2.0 e Kuaishou com o Kling, estão desenvolvendo suas próprias ferramentas de ponta para geração de vídeo, complementando a infraestrutura de processamento mais barata. Isso permite que as produtoras experimentem com formatos e narrativas que seriam proibitivamente caros ou demorados em métodos de produção convencionais.
Implicações e Desafios da Produção em Massa
O incentivo governamental e corporativo não se limita aos grandes estúdios; plataformas como a iQIYI também oferecem subsídios para criadores de conteúdo gerado por IA, ampliando a presença dessas produções no ambiente digital. Essa iniciativa está gradualmente expandindo a aplicação da tecnologia para além dos vídeos curtos das redes sociais, abrindo espaço para projetos com durações e estruturas mais próximas das produções cinematográficas tradicionais. Um marco importante é a aprovação pela Administração Nacional de Cinema da China do lançamento de "Sanxingdui: Future Memories", um filme de ficção científica de 90 minutos. Esta obra é notável por ser a primeira produção de IA de um grande estúdio a receber licença para exibição pública no país, sinalizando uma crescente aceitação e integração da tecnologia no circuito cinematográfico.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Criação
No entanto, a expansão acelerada da produção de conteúdo com IA não está isenta de desafios. O mercado chinês já exibe uma velocidade de produção difícil de acompanhar, com mais de 221 mil novas séries de IA lançadas no Douyin apenas no primeiro semestre de 2026, das quais apenas 1.055 ultrapassaram a marca de 100 milhões de visualizações. Esse cenário alimenta debates sobre a saturação do mercado e a proliferação de "AI slop" — conteúdo de baixa qualidade gerado em massa por inteligência artificial. A discrepância entre o volume de produções e o número de sucessos levanta questões sobre uma possível supercapacidade do setor, onde a produção excede a demanda do mercado. Embora a China já exija a rotulagem de conteúdos gerados por IA, questões fundamentais sobre o uso da imagem de atores, plágio e direitos autorais permanecem sem respostas definitivas. Enquanto esses debates evoluem, a China se esforça para consolidar uma cadeia de produção onde a IA se integre cada vez mais em todas as etapas, desde a concepção de cenas até a finalização de longas-metragens. O modelo chinês, mesmo com as incertezas, representa uma tentativa estrutural de incorporar a IA na indústria audiovisual.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Canaltech





