A China, maior produtora e consumidora mundial de hidrogênio, iniciou uma mudança estratégica para transformar o combustível em um pilar de sua transição energética. Segundo reportagem da Carbon Brief, o país produziu 36,5 milhões de toneladas em 2024, mas a maior parte ainda provém de combustíveis fósseis, predominantemente carvão. A meta agora é integrar o hidrogênio em setores de difícil eletrificação, como a indústria siderúrgica e química, distanciando-se do foco inicial em veículos leves que dominou os debates anteriores.
Embora o hidrogênio verde, derivado de fontes renováveis, seja a aposta de longo prazo, ele representa apenas 1% da produção atual. O governo chinês, contudo, tem implementado uma série de políticas, incluindo o plano de médio e longo prazo para 2021-2035 e um novo programa piloto de 2026, para subsidiar a redução de custos e o desenvolvimento de infraestrutura de transporte e armazenamento. A leitura aqui é que Pequim busca criar um ecossistema industrial completo, priorizando a viabilidade doméstica antes de considerar qualquer expansão de exportação.
O desafio da eficiência e dos custos
A viabilidade econômica do hidrogênio na China enfrenta obstáculos técnicos significativos. Especialistas apontam que o hidrogênio sofre com perdas de eficiência durante os processos de conversão, especialmente quando comparado à eletrificação direta. Enquanto veículos elétricos a bateria convertem cerca de 73% da energia em movimento, os veículos a célula de combustível de hidrogênio alcançam apenas 22%. Além disso, o custo de produção do hidrogênio verde, via eletrólise, permanece consideravelmente superior ao do hidrogênio derivado de carvão ou gás natural.
O cenário atual reflete um mercado em fase de maturação forçada. Fabricantes de equipamentos para o setor relataram prejuízos em 2025, e analistas do mercado local estimam que uma parcela significativa das empresas do setor pode encerrar atividades até 2026. A falta de uma rede de gasodutos dedicada, que hoje soma apenas cerca de 400 quilômetros frente aos 128.000 quilômetros da rede de gás natural, impõe um gargalo logístico que o governo tenta endereçar através de novos incentivos e clusters industriais integrados.
Mecanismos de suporte industrial
A estratégia chinesa para o hidrogênio difere daquela aplicada aos veículos elétricos (EVs). Em vez de subsídios diretos e generalizados, que no passado geraram casos de fraude e ineficiência, o governo tem optado por modelos baseados em desempenho e projetos piloto regionais. O programa anunciado em 2026, por exemplo, foca em financiar projetos que consigam reduzir os custos de produção para a faixa de 15 a 25 yuans por quilograma até 2030, incentivando a criação de ecossistemas locais que conectem oferta, infraestrutura e demanda industrial.
Vale notar que a política chinesa tornou-se mais pragmática. O foco mudou de uma tentativa de dominar o mercado de veículos de passageiros para uma abordagem de nicho em setores onde a eletrificação direta não é viável. Ao integrar o hidrogênio em cadeias de produção de amônia e metanol, a China tenta garantir demanda estável, um fator crucial para que a escala reduza os custos unitários e torne o hidrogênio competitivo frente aos combustíveis fósseis.
Implicações para o mercado global
A ascensão da indústria chinesa de hidrogênio gera apreensão em mercados internacionais, especialmente na União Europeia. Embora a China detenha cerca de 60% da capacidade global de fabricação de eletrolisadores, especialistas sugerem que o impacto no mercado externo será limitado no curto prazo devido à dificuldade de transporte desse equipamento e à especificidade das necessidades domésticas chinesas. O foco de Pequim parece ser a segurança energética nacional e a redução das emissões de carbono na base industrial pesada.
Para competidores globais, o movimento chinês sinaliza uma corrida tecnológica acelerada. Se a China conseguir repetir a persistência demonstrada no setor de baterias, o custo global das tecnologias de hidrogênio pode cair drasticamente, beneficiando a transição energética mundial. No entanto, o sucesso dependerá da capacidade do país em resolver a questão da 'bancabilidade' dos projetos e da infraestrutura, algo que ainda carece de evidências sólidas de lucratividade no curto prazo.
Perspectivas e incertezas
O futuro do hidrogênio na China permanece condicionado à eficácia dos novos programas piloto e à capacidade das empresas de sobreviverem até que o mercado alcance escala. A transição de um combustível baseado em carvão para um sistema de hidrogênio limpo exige investimentos massivos em energia renovável adicional, o que adiciona outra camada de complexidade ao planejamento central chinês.
Observar como os clusters regionais traduzirão os subsídios em demanda real será o próximo passo para avaliar se o hidrogênio se tornará, de fato, o próximo grande motor industrial do país. O que resta saber é se o modelo de 'crescimento forçado' conseguirá superar as ineficiências termodinâmicas inerentes à tecnologia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Carbon Brief





