A liderança dos Estados Unidos em hardtech, um setor cada vez mais vital para a inovação e a economia, enfrenta um desafio estrutural vindo da China. Enquanto o capital de risco americano opera sob a disciplina inerente à perda — onde a maioria dos investimentos falha e os poucos sucessos precisam cobrir essas perdas —, o modelo chinês adota uma abordagem radicalmente diferente. Dados recentes indicam que 90% do capital comprometido no mercado de private equity chinês em 2025 veio de investidores afiliados ao Estado, um aumento significativo em relação aos anos anteriores. Essa diretiva, alinhada com o chamado do presidente Xi Jinping para "investir cedo, investir pequeno, investir a longo prazo e investir em hard technology", reflete uma prioridade nacional clara.

Competição sem regras de mercado

A distinção entre o modelo chinês e o capital de risco tradicional é crucial. Nos EUA e na Europa, o capital de risco público, como o SBIC ou programas europeus, participa de uma pequena fração das transações de VC, atuando como facilitador em vez de criador de mercado. Na China, essa participação estatal massiva não é apenas uma versão ampliada do mesmo modelo, mas algo fundamentalmente distinto. A essência do venture capital ocidental reside na disciplina imposta pela perda. A taxa de falha de dois terços nos investimentos de estágio inicial força os investidores a serem seletivos e a alocar capital apenas para ideias com potencial real de sucesso. Essa seletividade, parte do conceito de "destruição criativa" de Schumpeter, é o que permite ao sistema descobrir o que funciona e o que não funciona.

O perigo do capital estatal ilimitado

Quando um fundo não precisa responder à disciplina da perda, ou quando a mesma instituição que fornece o capital pode estender indefinidamente o prazo, garantir compras preferenciais ou redefinir o valor de rodadas futuras, o cenário competitivo muda drasticamente. Um exemplo histórico disso foi o Japão nas décadas de 1990 e 2000, onde bancos mantiveram empresas insolventes ativas, suprimindo a entrada de negócios mais produtivos e levando a décadas de estagnação econômica. Relatos de parceiros de capital de risco descrevem um "nível de frenesi" no financiamento de "indústrias futuras" na China, com empresas recém-fundadas sendo avaliadas em múltiplos de seus valores atuais, unicamente com base no apoio governamental, e não em produtos demonstrados.

Implicações para a inovação global

As áreas onde essa dinâmica se manifesta mais rapidamente são justamente as que definem o futuro da inovação: robótica e computação quântica. O financiamento nesses setores na China superou os totais do ano anterior em poucos meses de 2026. Essa velocidade e tolerância ao risco, que nenhum investidor disciplinado pelo mercado igualaria, já geram respostas políticas. Os EUA baniram importações de robôs humanoides e quadrúpedes estrangeiros por riscos de cibersegurança e cadeia de suprimentos, e a União Europeia sinaliza estender a lógica de segurança aplicada a EVs chineses para veículos autônomos. Essas ações reconhecem que um domínio de mercado construído com capital que não responde à perda é de natureza diferente daquele conquistado pela sobrevivência em um ambiente competitivo rigoroso.

A resposta dos EUA não deve ser tentar igualar os subsídios estatais, uma corrida que não pode ser vencida. Em vez disso, o foco deve ser na qualidade e na resiliência das tecnologias que sobrevivem ao escrutínio de clientes reais, às restrições de manufatura e à disciplina de investidores que arcam com o custo do fracasso. A inovação genuína, validada por mecanismos de mercado, continua sendo o pilar da liderança tecnológica de longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company