A engenharia da Tesla continua a impressionar, com o novo Roadster demonstrando a capacidade de inovação americana. No entanto, a questão crucial não é se os EUA podem criar tecnologia de ponta, mas sim se conseguem torná-la acessível em escala global. A China, com seu apoio estatal robusto e incentivos generosos de P&D, está emergindo como um concorrente formidável, já conquistando espaço em mercados como o Reino Unido com veículos que combinam tecnologia avançada e preços agressivos.
A Lição da História: Japão e a Perda da Vantagem Produtiva
A competição no setor automotivo não é novidade para os Estados Unidos. Nas décadas de 1970 e 1980, fabricantes japoneses ganharam consumidores americanos com veículos mais eficientes em termos de combustível e de maior qualidade. Crucialmente, eles também desenvolveram métodos de produção mais eficientes. A resposta americana, contudo, foi lenta. Análises recentes indicam que as "Big Three" americanas levaram de 10 a 15 anos para igualar os avanços japoneses em eficiência fabril. Essa defasagem ressalta que a inovação tecnológica, por si só, não garante a liderança de mercado se a capacidade de produção e a eficiência de custos não acompanharem.
O Desafio da Comercialização e o Avanço Chinês
Enquanto os EUA se destacam em pesquisa e desenvolvimento, a capacidade de transformar essas descobertas em produtos comercialmente viáveis e a preços competitivos tem sido um desafio persistente. A China, por outro lado, tem se destacado na comercialização em massa. O país asiático é o maior centro de fabricação de VEs do mundo, respondendo por 40% das exportações globais de carros elétricos em 2024. Um fator determinante é o custo: os preços dos pacotes de baterias na China caíram cerca de 30% em 2024, comparado a uma queda de 15% nos EUA. Embora tarifas impostas pelos EUA tenham mitigado parte dessa vantagem de custo no mercado americano, elas não eliminam a diferença fundamental de preço e eficiência produtiva.
Incentivos e Manufatura Avançada: O Caminho para a Recuperação
Proteger o mercado interno com tarifas, como os EUA fizeram com uma taxa de 100% sobre VEs chineses, é uma medida compreensível, mas insuficiente. A verdadeira solução reside em estimular o investimento doméstico em manufatura avançada, robótica e equipamentos de ponta. A experiência passada com o crédito fiscal federal para pesquisa e desenvolvimento, criado em 1981, demonstra que incentivos governamentais são essenciais para encorajar a inovação e a competitividade do setor privado. A política fiscal, tanto em nível federal quanto estadual, deve ser reavaliada para garantir que os recursos financeiros estejam disponíveis para engenheiros, protótipos e linhas de produção, em vez de serem consumidos por impostos de curto prazo.
Olhando para Frente: Um Ecossistema de Inovação Sustentável
Para competir eficazmente, os Estados Unidos precisam cultivar um ecossistema de manufatura avançada que vá além das grandes corporações. Pequenas e médias empresas, que frequentemente assumem riscos maiores e desenvolvem propriedade intelectual valiosa, também necessitam de acesso facilitado a capital e regras de política governamental estáveis. A clareza regulatória é fundamental para que empresas possam planejar investimentos de longo prazo, como a construção de fábricas de baterias ou a modernização de linhas de produção. A inovação da Tesla é um testemunho do potencial americano, mas a capacidade de tornar essa tecnologia acessível ao consumidor global dependerá de um forte ecossistema de manufatura, onde a eficiência produtiva e a competitividade de custos sejam tão valorizadas quanto a própria descoberta tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





