Em um mundo cada vez mais moldado pela gratificação instantânea, a capacidade humana de planejar o futuro parece se esvair. Políticos, empresários e a sociedade em geral parecem presos a um ciclo de curto prazo, onde o presente devora as possibilidades futuras. Essa dinâmica, diagnosticada há décadas por pensadores como Daniel Bell, é particularmente visível em democracias de consumo, onde os incentivos sistêmicos favorecem a satisfação imediata, deixando pouco espaço para a construção de um amanhã sustentável. A cultura do "agora", manifestada em tudo, desde a moda rápida até os relatórios trimestrais corporativos, sufoca a visão de longo prazo necessária para enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas.

O Custo do Imediatismo Democrático

O ensaio "Americans Are Losing The Long Game", de Simon Curtis e Ian Klaus, ilumina essa falha crítica nas democracias ocidentais. Enquanto economias de mercado tendem a desconfiar de políticas estatais dirigistas que apoiam indústrias estratégicas para o futuro, a rigidez do imediatismo consumista é menos reconhecida como um grave erro de governança. A verdade é que, sem preparação, subsídios e investimentos direcionados, as sociedades não alcançarão o futuro desejado. A construção de um amanhã próspero e sustentável exige uma ação deliberada e contínua, algo que o ciclo eleitoral e a pressão do mercado muitas vezes impedem. A consequência direta é um presente que consome o futuro, comprometendo a sustentabilidade a longo prazo das sociedades.

A China e o "Estado-Mercado"

Em contraste com o Ocidente, a China pós-Mao tem se destacado por sua capacidade de controlar seu futuro sem sacrificar o presente. Nas últimas décadas, o país não apenas tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, mas também conquistou rapidamente setores cruciais para um futuro sustentável, como tecnologia verde e inteligência artificial. O modelo chinês, uma combinação de planejamento de longo prazo com sinais de mercado robustos e subsídios estratégicos, tem se mostrado eficaz. Essa eficácia, no entanto, gerou um efeito colateral: a superprodução chinesa que inunda mercados globais, ameaçando empregos e indústrias em outros países.

O sucesso chinês não é obra do acaso. Em 1987, ideólogos do Partido Comunista já vislumbravam uma "nova e sem precedentes modalidade" onde o planejamento se fundiria com a economia de mercado, com o Estado regulando e o mercado guiando as empresas. Esse sistema, operando sob um regime de partido único, é projetado para alcançar consensos sobre metas de longo prazo, garantindo a continuidade e a disciplina na execução dessas políticas ao longo de anos, independentemente de eleições populares. Uma vez estabelecido um objetivo estratégico pelo Partido, o Estado mobiliza um "dragão inteiro", alinhando subsídios, fornecedores, cadeias de suprimentos e capacidade de produção de forma vertical, criando um dos mais poderosos conjuntos de produção da história econômica.

Forças e Fraquezas do Modelo Chinês

A principal falha do sistema chinês é intrinsecamente ligada à sua força. Para manter o consenso, o país recorre a um controle repressivo e à limitação da liberdade, o oposto das sociedades abertas do Ocidente. Nelas, a força da participação diversa e da competição eleitoral se torna uma fraqueza: a incapacidade de forjar um consenso sobre metas de longo prazo em meio a um coro de vozes conflitantes e à opinião pública volátil. Em cenários de forte partidarismo, a transferência democrática de poder pode significar uma ruptura completa de políticas antes endossadas pela maioria. Manter um curso por tempo suficiente para que ele dê frutos não é uma característica confiável desse sistema. A diferença gritante se manifesta no comportamento de líderes atuais dos EUA e da China; enquanto o líder americano se deleita em dominar o noticiário diário com contestações e barragens de mídia social, o líder chinês utiliza seu poder para traçar um roteiro para as próximas cinco décadas.

A Revolução Verde Chinesa

Em 2012, a questão das mudanças climáticas entrou pela primeira vez na agenda do G-20. Naquele ano, o 21st Century Council do Berggruen Institute, um grupo de ex-chefes de estado, líderes de tecnologia e laureados com o Nobel, reuniu-se com o então presidente mexicano Felipe Calderón. Na ocasião, Wu Jianmin, diplomata chinês, relatou que uma prioridade da nova liderança de Xi Jinping seria a "civilização ecológica". Há mais de uma década, ele detalhou a trajetória da China rumo a veículos elétricos e investimentos massivos em pesquisa e desenvolvimento para baterias de armazenamento para energia solar e eólica. Na época, a China não era sequer uma competidora no mercado automotivo, e a produção de baterias estava apenas começando. Hoje, quase 70% das vendas de carros novos na China são elétricos, e metade das vendas globais são de veículos elétricos fabricados na China. O país produz cerca de 80% das baterias do mundo e detém 70% das patentes globais nesse setor. Além disso, abriga metade da capacidade mundial de armazenamento de baterias em larga escala, crucial para a rede elétrica.

Como parte de sua abordagem "dragão inteiro", a China construiu uma infraestrutura capilar de estações de recarga rápida para impulsionar o uso de veículos elétricos. Lançou um programa estratégico para vincular o armazenamento de baterias à rede, exigindo que desenvolvedores construíssem capacidade de armazenamento em larga escala como condição para a aprovação de novas instalações solares ou eólicas. A exportação dessa tecnologia permitiu o avanço de baterias em larga escala para integração em redes elétricas em muitos países. Cerca de 70% das baterias de veículos elétricos no mundo são de origem chinesa. A Califórnia, por exemplo, possui as maiores instalações de armazenamento de baterias do mundo fora da China, com capacidade projetada para atingir 52.000 MW até 2045. Embora muitas vezes montadas na Califórnia, 90% das células e componentes essenciais dessas baterias vêm da China.

Quotas e Dumping: Uma Relação Perigosa

Do ponto de vista da corrida contra o tempo para combater o clima, a ampla disseminação da tecnologia verde chinesa é um ganho para o planeta. Contudo, como em outras áreas de competição comercial, seus produtos mais baratos e a superprodução criam uma dependência vulnerável de um sistema político que o Ocidente considera um adversário estratégico. A pujança chinesa ameaça levar à falência indústrias domésticas. Diante da criticidade da tecnologia verde para o futuro, a abordagem mais sensata não seria proibir importações chinesas, mas estabelecer quotas razoáveis, além das quais tarifas seriam aplicadas. Isso limitaria os danos, ao mesmo tempo que permitiria que a concorrência externa estimulasse o crescimento da indústria doméstica. Subsídios, para além da ideologia do livre mercado, não são o fim do mundo quando a própria biosfera está em jogo. A Califórnia, por exemplo, demonstrou como a regulação cria mercados, não os destrói; o império Tesla de Elon Musk jamais teria surgido sem os padrões de eficiência de combustível e energia limpa do estado, que criaram o mercado para sua tecnologia.

Aprender com a China, Sem Virar Autocracia

Diante da urgência climática, é impolítico sugerir que as democracias de consumo possam aprender algo com a China? Não se trata, de forma alguma, de o Ocidente se voltar para a autocracia ou o autoritarismo. Trata-se, sim, de um alerta: a menos que as democracias consigam olhar além do horizonte de curto prazo e encontrar maneiras de forjar um consenso governamental duradouro, elas ficarão para trás. Parafraseando um antigo ditado chinês: "As pedras de outras montanhas podem polir a jade em casa." A questão que permanece é se as democracias ocidentais conseguirão adaptar a sabedoria da construção de futuro sem se desviar de seus próprios princípios fundamentais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Noema Magazine