O mercado financeiro de Wall Street tem acompanhado com atenção a participação estrangeira na dívida pública americana, especialmente em busca de sinais de uma retirada chinesa em retaliação às políticas comerciais dos Estados Unidos. No entanto, o que se observa nos dados oficiais levanta mais dúvidas do que respostas. Vitaliy Liberman, da DoubleLine, notou um crescimento atípico e acelerado das posições do Canadá em Treasuries e títulos lastreados por agências federais de habitação, acumulando quase US$ 600 bilhões em cinco anos. Essa alta contrasta com o boicote a produtos americanos em meio à guerra tarifária e levou muitos no mercado a suspeitar que o "Canadá" nos registros do Tesouro dos EUA é, na verdade, um disfarce para a China.
Oficialmente, a China tem reduzido sua participação em títulos do Tesouro americano desde 2016, com suas reservas caindo pela metade. O mesmo ocorre com títulos hipotecários garantidos pelo governo federal. Essa retirada de um grande credor é uma preocupação recorrente, especialmente diante de um déficit anual americano de cerca de US$ 2 trilhões e da pressão sobre o mercado de renda fixa. Contudo, a teoria que ganha força é que as autoridades chinesas estariam transferindo seus ativos para bancos custodiantes em outros países, como o Canadá, para que não apareçam sob propriedade chinesa nos registros oficiais. Essa estratégia permitiria a Pequim dar a impressão de que está reduzindo sua dependência financeira dos EUA, ao mesmo tempo em que desafia a predominância global do dólar.
O Enigma das Estatísticas Oficiais
As especulações de que a China redistribui seus ativos internacionalmente para mascarar sua origem não são novas. Rumores semelhantes ganharam força em 2014, quando as posições da Bélgica em Treasuries dispararam. O debate atual evidencia um dilema da era Trump: apesar do desejo de diversos países em reduzir a influência do dólar, nenhuma outra moeda conseguiu rivalizar com sua importância no comércio internacional. Quando países acumulam mais dólares do que precisam, bancos centrais e instituições financeiras geralmente aplicam esses recursos em títulos do Tesouro dos EUA. "A história aqui é que a China se tornou muito mais eficiente em esconder seus dólares do que em abandonar o dólar", afirma Brad Setser, ex-integrante do Tesouro americano.
A China, como maior potência manufatureira e segunda maior economia global, acumula um superávit comercial expressivo. Uma venda maciça de seus ativos americanos poderia valorizar o yuan, prejudicando suas exportações, e derrubar os preços dos títulos, reduzindo o valor de sua própria carteira. "Essas posições continuam sendo um passivo significativo para Pequim", observa Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico do Natixis. "Vendas em larga escala cristalizariam perdas, fortaleceriam o yuan e ainda deixariam a China com o problema de encontrar onde aplicar os dólares."
A Transferência de Ativos para o Canadá
Não há uma explicação clara para que a China tenha transferido ativos especificamente para o Canadá, embora ambos os países mantenham atritos com o governo Trump. O crescimento dos títulos hipotecários americanos registrados no Canadá é particularmente notável, saltando de cerca de US$ 21 bilhões em meados de 2021 para aproximadamente US$ 162 bilhões atualmente. Investidores e estrategistas do setor hipotecário consultados pela Bloomberg afirmam nunca ter visto fluxos significativos de compra por parte de investidores canadenses, e algumas das maiores instituições financeiras do país não atuam como compradoras relevantes desse tipo de ativo. "A compra de hipotecas americanas por canadenses nunca foi um tema de discussão", disse Nick Travaglino, da Nuveen Asset Management.
Nem todos atribuem o fenômeno exclusivamente à China. Alex Etra, estrategista macro da Vanda Research, sugere que parte do movimento pode refletir estratégias de valor relativo de fundos de hedge canadenses. "Não me sinto confortável para dizer que isso é claramente tudo China", afirma. "Estamos todos tentando entender diferentes partes do elefante, mas ninguém tem uma visão completa."
Implicações Geopolíticas e Econômicas
Ocultar a localização dos ativos americanos pode trazer vantagens políticas e estratégicas para Pequim, reforçando a percepção de desacoplamento dos EUA. O presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, já criticou o sistema financeiro global baseado no dólar, alertando que moedas dominantes podem ser "instrumentalizadas" em conflitos geopolíticos. O congelamento de ativos russos e as ameaças de exclusão de entidades iranianas do sistema financeiro dolarizado reforçam essa preocupação chinesa.
Mesmo assim, a China continua com poucas alternativas viáveis para alocar seus dólares. "Com um superávit comercial desse tamanho, não é possível reduzir as posições em títulos do Tesouro americano nessa velocidade", argumenta Garcia-Herrero, questionando os dados oficiais. A dependência chinesa do dólar e dos Treasuries, apesar das tensões, permanece um pilar da economia global.
Dúvidas sobre a Verdadeira Venda
A análise dos dados de participação estrangeira na dívida americana sugere que a narrativa oficial de uma China se desfazendo de seus títulos do Tesouro pode ser incompleta ou enganosa. A aparente transferência de ativos para o Canadá levanta a possibilidade de que Pequim esteja buscando uma estratégia mais sutil de diversificação e de projeção de poder financeiro, em vez de uma ruptura abrupta com o sistema financeiro dominado pelo dólar.
O mistério em torno dos fluxos de capital para o Canadá e a persistente dependência chinesa de dólares americanos deixam em aberto questões cruciais sobre o futuro das relações financeiras entre as duas maiores economias do mundo. A verdadeira extensão da participação chinesa na dívida dos EUA e suas intenções de longo prazo permanecem um enigma para os mercados globais. Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





