A indústria automotiva chinesa atingiu um patamar de produção que desafia a logística global. Em poucos anos, as exportações de veículos saltaram de menos de 600 mil unidades em 2019 para uma projeção de até 10 milhões para o ano corrente. Essa explosão produtiva, impulsionada pela saturação do mercado interno e pela busca por válvulas de escape para mais de 100 marcas nacionais, criou uma escassez crítica de navios transportadores de automóveis, conhecidos como Ro-Ro (Roll-on/Roll-off).

O gargalo da logística marítima

A demanda por esses navios, que funcionam como garagens flutuantes, superou a oferta de forma drástica. As tarifas de frete para um grande transportador de carros atingiram picos de US$ 70.000 por dia em junho, um aumento expressivo em relação ao final do ano anterior e o dobro dos níveis pré-pandemia. Apesar de empresas terem encomendado milhares de novos navios para entrega entre 2022 e 2025, a frota mundial, que cresceu cerca de 40%, ainda se mostra insuficiente para absorver o volume de exportações chinesas.

Novas rotas e soluções criativas

Diante da escassez de navios Ro-Ro, fabricantes chineses estão recorrendo a alternativas. Embora prefiram o transporte direto por serem mais barato e seguro, muitos utilizam contêineres para embarcar veículos, com alguns transportando de dois a quatro carros em um contêiner de 40 pés. Outras soluções incluem o uso de "flat racks", onde os carros são fixados em estruturas metálicas e carregados em navios de carga convencionais. Empresas como a Leapmotor, com apoio da Stellantis, têm adaptado navios multipropósito para transportar até mil carros por viagem em estruturas dobráveis.

A aposta na frota própria

O cenário logístico desafiador está levando os fabricantes chineses a repensar suas cadeias de suprimentos, com algumas empresas optando por possuir suas próprias frotas de navios. A BYD, por exemplo, já opera uma frota de oito navios e encomendou outros dez, totalizando capacidade para transportar mais de 2,5 milhões de veículos anualmente. Essa estratégia visa garantir o escoamento da produção e controlar custos, transformando o transporte marítimo em uma extensão do próprio negócio automotivo.

A indústria automotiva global observa atentamente essa dinâmica. A superprodução chinesa não apenas pressiona a capacidade logística internacional, mas também redefine a competição no mercado, com marcas chinesas ganhando espaço na Europa e em outros mercados. A escassez de navios, por sua vez, eleva os custos de exportação e incentiva inovações logísticas, sinalizando um período de adaptação e reconfiguração para todo o setor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka