A China ostenta um feito notável: antecipou em seis anos, para 2024, a meta de capacidade instalada de energia eólica e solar prevista para 2030. O país asiático não apenas lidera a implantação dessas tecnologias em escala mundial — investindo US$ 625 bilhões em energia limpa em 2025, 31% do total global —, mas também domina a cadeia produtiva, desde a mineração de materiais críticos até a fabricação de painéis solares e turbinas eólicas. Sua hegemonia se estende à indústria de veículos elétricos, onde responde por 75% da produção e 60% das vendas globais.

O Dilema da Intermitência e da Rede

Contudo, essa expansão massiva de renováveis coexiste com um paradoxo: a China permanece a maior consumidora de carvão do mundo, respondendo por cerca de 55,8% do consumo global em 2025. O país não só mantém suas usinas a carvão em operação, como também inaugurou 30 GW de capacidade a carvão em 2026, dez vezes mais do que desativou no ano anterior, com planos para mais 274 GW. A explicação reside na natureza intermitente da energia solar e eólica. Elas geram eletricidade apenas quando há sol ou vento, não necessariamente alinhadas aos picos de demanda. Esse descompasso leva a um desperdício de energia limpa, com taxas de curtailment (redução forçada de produção) elevadas, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).

Carvão como Garantia de Estabilidade

A infraestrutura de rede da China, apesar dos avanços, ainda luta para transportar, armazenar e gerenciar o excedente de eletricidade gerado pelas renováveis. Sem capacidade suficiente para suprir a demanda em momentos de baixa produção eólica ou solar, as usinas a carvão tornam-se um recurso essencial para garantir a estabilidade do sistema energético. A estratégia chinesa, segundo o Financial Times, visa tornar essas usinas mais flexíveis, operando por períodos mais curtos e servindo como um respaldo confiável. Essa dualidade energética — a aposta ambiciosa em fontes limpas combinada com a necessidade de manter a segurança do fornecimento via carvão — reflete um desafio global na transição energética.

Implicações Globais e a Busca por Equilíbrio

A estratégia chinesa de manter o carvão como um colchão de segurança energética, mesmo liderando a expansão das renováveis, tem implicações que transcendem suas fronteiras. O país é um ator central na fabricação de tecnologias limpas, mas sua demanda contínua por carvão impacta os mercados globais de commodities e as metas climáticas internacionais. A busca por um equilíbrio entre a expansão acelerada de fontes intermitentes e a necessidade de uma base de fornecimento estável e confiável é um desafio que outras nações também enfrentam, embora em escalas diferentes. A forma como a China gerenciará essa tensão definirá não apenas seu futuro energético, mas também influenciará a trajetória da transição energética global.

Perguntas em Aberto na Transição Energética

O futuro energético da China permanece em aberto, com a questão central sendo se a expansão da infraestrutura de rede e das tecnologias de armazenamento de energia conseguirá, a médio prazo, mitigar a necessidade do carvão. A capacidade do país de inovar e implementar soluções que permitam o aproveitamento total de sua vasta produção renovável, ao mesmo tempo em que garante a segurança energética, será crucial. Acompanhar o ritmo de desenvolvimento de novas tecnologias de armazenamento e a agilidade na modernização de sua rede elétrica são pontos-chave para observar nos próximos anos, determinando se a China conseguirá, de fato, superar sua dependência do carvão.

A China se encontra em um ponto crucial de sua jornada energética, equilibrando a liderança em tecnologias verdes com a necessidade pragmática de manter a segurança de seu suprimento elétrico. A complexidade dessa dualidade é um reflexo dos desafios inerentes à transição energética em larga escala, com lições importantes para o cenário global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka