A China manteve sua máquina de exportações em ritmo acelerado durante o período de 2022-2023 por meio de uma combinação de incentivos fiscais e uma moeda desvalorizada, ajudando a sustentar o crescimento econômico doméstico enquanto enviava uma onda de produtos para mercados no exterior. Essa estratégia, no entanto, alimentou tensões com seus parceiros comerciais. Na época, autoridades europeias se preparavam para pressionar o governo chinês sobre um déficit comercial diário com a China que superava US$ 1,1 bilhão, argumentando que subsídios governamentais e empréstimos a juros baixos desequilibravam a concorrência.
No entanto, os subsídios eram apenas parte da vantagem competitiva desfrutada pelos exportadores chineses. O renminbi, a moeda da China, continuava excepcionalmente desvalorizado, tornando os produtos chineses mais baratos no exterior. Ao mesmo tempo, Pequim devolvia aos exportadores centenas de bilhões de dólares em impostos, reduzindo ainda mais seus custos. Essas duas políticas se tornaram difíceis de desmontar para a China. Desde o início de 2022 até o final de 2023, o renminbi acumulou queda de mais de 14% em termos ajustados pela inflação em relação a uma cesta ampla de moedas. No mesmo período, o superávit comercial da China quase dobrou. Embora a moeda fraca ajudasse os exportadores, ela também encarecia produtos estrangeiros para consumidores e empresas chinesas.
O Dilema das Políticas de Exportação
Os incentivos fiscais às exportações da China dispararam naquele período. As devoluções de impostos sobre valor agregado às empresas exportadoras chegaram a US$ 318,2 bilhões em 2022, o equivalente a 1,5% da economia chinesa, segundo dados do Ministério das Finanças do país. Juntos, a moeda desvalorizada e os amplos incentivos fiscais expuseram o dilema enfrentado pelos formuladores de políticas chineses. As exportações eram um dos poucos pontos positivos de uma economia então afetada pela queda dos preços dos imóveis e pelo fraco consumo. Manter o ritmo das exportações era importante para a meta de Pequim de crescimento econômico entre 4,5% e 5%.
Mas sustentar essas exportações trazia custos elevados. Um renminbi fraco elevava o custo do petróleo e de outras importações, pressionando famílias que já estavam relutantes em gastar. Os incentivos fiscais reduziam as receitas do governo justamente quando muitos governos locais enfrentavam dificuldades financeiras decorrentes da crise imobiliária. Para os parceiros comerciais da China, especialmente na Europa, o ressentimento crescia e provocava a adoção de políticas mais protecionistas. A situação, na época, era descrita como insustentável por representantes europeus.
Pressão Internacional e Custos Domésticos
Com a China a caminho de igualar ou superar em 2023 o recorde de US$ 1,19 trilhão de superávit comercial global registrado em 2022, permitir que o renminbi se valorizasse e reduzir os incentivos fiscais poderia aliviar parte da pressão internacional. Mas qualquer uma dessas medidas também poderia prejudicar uma das poucas fontes de crescimento da economia. Alguns economistas chineses de destaque começaram a defender que uma moeda mais forte poderia beneficiar o país ao reduzir o custo de importações cotadas em dólar.
Pequim, contudo, mostrava-se cautelosa em permitir uma valorização significativa. Os formuladores de políticas estavam cientes da insatisfação europeia, mas continuavam receosos de que uma alta rápida do renminbi desacelerasse a máquina exportadora. A mesma cautela se aplicava aos incentivos fiscais. Antes da pandemia, eles consumiam cerca de um décimo das receitas tributárias. Naquele momento, enquanto as exportações disparavam e a economia doméstica permanecia estagnada, eles representavam quase um oitavo. Como um possível sinal de ajuste, a China anunciou na época planos para interromper, a partir de 2024, os incentivos fiscais destinados a exportadores de algumas baterias.
O Impacto no Chão de Fábrica e a Visão de Especialistas
A relutância de Pequim em colocar as exportações em risco podia ser vista em centros industriais como Guangzhou. Na ilha de Haizhu, trabalhadores da indústria de confecção relatavam queda no movimento e nos salários diários. A crise imobiliária chinesa paralisou a demanda doméstica, enquanto tarifas e a concorrência de países com salários mais baixos prejudicaram as exportações.
Essa fraqueza ajudava a explicar por que Pequim relutava em arriscar políticas que pudessem enfraquecer ainda mais as exportações. A desvalorização do renminbi, que se acentuou após os lockdowns de Covid-19 em 2022, coincidiu com o colapso do mercado imobiliário chinês, corroendo a poupança das famílias. Embora o renminbi tenha se valorizado um pouco nos últimos meses de 2023, permanecia abaixo dos níveis pré-pandemia quando ajustado pela inflação. A força das exportações chinesas também se devia à inovação em setores como baterias e veículos elétricos, mas economistas argumentavam que os preços baixos também refletiam fragilidades da economia doméstica.
Perguntas em Aberto e o Caminho Adiante
Naquela época, especialistas divergiam sobre a melhor abordagem para a China. Alguns defendiam que reduzir os incentivos fiscais às exportações poderia ter um impacto maior do que permitir a valorização do renminbi. Outros apontavam que uma moeda mais forte traria benefícios. A questão central, que permanece relevante, é: como a China pode reequilibrar sua economia, reduzir as tensões comerciais e, ao mesmo tempo, gerenciar a dependência de suas exportações?
A China busca um delicado equilíbrio entre manter seu motor de exportação funcionando e atender às demandas por um comércio mais justo. As decisões tomadas em Pequim nos anos seguintes àquele período de 2023 continuam a ter implicações significativas para a economia global e as relações comerciais com seus principais parceiros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





