A relação entre Índia e China, as duas potências nucleares que somam um terço da população mundial, vive uma paz precária. Após os confrontos militares no Vale de Galwan em 2020, que congelaram a diplomacia, os canais de diálogo foram reabertos de forma hesitante. Contudo, uma recente reunião a portas fechadas em Pequim entre jornalistas indianos e acadêmicos chineses expôs uma corrente subterrânea que define a relação: uma falha de comunicação fundamental, enraizada em décadas de desconfiança e narrativas históricas conflitantes.
Segundo uma profunda análise da Noema Magazine, o maior obstáculo entre os dois gigantes asiáticos não é a fronteira disputada de 4 mil quilômetros, nem a crescente disparidade econômica. A tese é que o problema é mais profundo: Pequim e Nova Delhi não pensam um sobre o outro com a mesma intensidade e, quando o fazem, interpretam as ações do vizinho através de um prisma histórico distorcido. Para a China, os Estados Unidos são o único ator estratégico relevante; a Índia é um coadjuvante regional. Para a Índia, a China é a força gravitacional que define cada decisão militar e cada aliança internacional.
O peso da história (e do PIB)
A assimetria entre os dois países é, antes de tudo, econômica. Em 1990, China e Índia tinham rendas per capita similares. Hoje, o PIB chinês de US$ 19,4 trilhões é quase cinco vezes maior que o indiano, de US$ 4,1 trilhões. Em um encontro recente em Pequim, um dos participantes chineses foi direto ao ponto, sugerindo que a Índia deveria “aceitar sua posição de relativa fraqueza sem vergonha” e usar a força econômica da China para seu próprio desenvolvimento. Do lado indiano, a recomendação pragmática foi recebida como pura condescendência.
Essa percepção de superioridade chinesa tem raízes históricas. Uma parte da elite chinesa ainda enxerga a Índia através do termo pejorativo “Ah San” — literalmente “número três”. A expressão remonta à China colonial, quando policiais sikhs e comerciantes indianos eram vistos como intermediários do poder imperial britânico, ocupando uma posição subalterna na hierarquia, abaixo dos europeus (número um) e dos próprios chineses (número dois). A imagem do indiano como um instrumento voluntário do Ocidente se fixou no imaginário chinês. A leitura em Pequim é que a posição atual da Índia — sua participação no Quad (aliança com EUA, Japão e Austrália) e sua aproximação com o Ocidente — é apenas uma continuação desse papel histórico: o “Ah San” do século 21, ainda fazendo o trabalho do homem branco.
A ferida aberta de 1962
Se a China lê a Índia pela lente da subordinação colonial, a Índia lê a China pela lente da traição. Nos anos 1950, o slogan “Hindi-Chini bhai-bhai” (“Indianos e chineses são irmãos”) representava um idealismo genuíno. O então primeiro-ministro Jawaharlal Nehru investiu capital político na visão de duas grandes civilizações asiáticas construindo juntas um futuro pós-colonial. Essa visão ruiu em outubro de 1962, quando a China lançou uma ofensiva surpresa na fronteira, infligindo uma derrota catastrófica a uma Índia despreparada. Para Pequim, foi um “contra-ataque de autodefesa” contra provocações indianas. Para Nova Delhi, foi a prova de que a China era um ator de má-fé.
Mais de 60 anos depois, essa ferida continua a moldar a percepção estratégica indiana. O apoio militar chinês ao Paquistão não é visto como uma aliança geopolítica normal, mas como parte de uma estratégia de cerco. A pressão militar chinesa na fronteira, frequentemente cronometrada para coincidir com momentos de vulnerabilidade interna indiana, reforça a convicção de que Pequim usa o diálogo como uma cortina de fumaça para ganhos táticos. Da perspectiva indiana, o país é um par civilizacional da China — afinal, o budismo, que transformou a cultura chinesa, nasceu na Índia. A postura chinesa é vista não apenas como arrogante, mas como um esquecimento de uma dívida histórica.
O resultado é um diálogo de surdos. China e Índia falam fluentemente, mas em idiomas diferentes, carregados de pressupostos que o outro lado não compreende ou rejeita. Agravando o quadro, quase não há mais correspondentes de um país no outro; em 2024, havia apenas um jornalista indiano baseado na China e nenhum chinês na Índia. A informação é filtrada por fontes ocidentais ou, pior, por trolls nacionalistas em redes sociais. Retomar a presença jornalística não resolverá a desconfiança mútua da noite para o dia, mas é um primeiro passo indispensável para que ambos os lados comecem a entender a linguagem um do outro, em vez de apenas falarem mais alto em seu próprio idioma.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Noema Magazine





