A artista canadense Chloé Wise inaugurou recentemente a exposição Extrasensory no museu Kulturstiftung Basel H. Geiger, em Basel, na Suíça. Com curadoria de Samuel Leuenberger, a mostra, que permanece aberta ao público até o dia 6 de setembro, marca a estreia da artista no país com um projeto que funde cinema, instalação e crítica cultural. O eixo central da exposição é o filme PsyFi*, uma obra cinematográfica que investiga a fascinação secular da humanidade pelo desconhecido e pela possibilidade de vida extraterrestre.

O projeto se destaca pela construção de três ambientes imersivos que desafiam a percepção do visitante sobre o que é real e o que é construído pelo mito. Segundo reportagem do Hypebeast, a exposição começa com uma loja de conveniência esotérica, repleta de objetos que remetem a teorias da conspiração, tarô e suvenires alienígenas, estabelecendo desde o início o tom de investigação sobre como a crença é moldada socialmente.

A intersecção entre o sagrado e o ficcional

A proposta de Wise com Extrasensory é o que ela denomina como um processo de "reencantamento". A artista busca traçar paralelos diretos entre as narrativas de ficção científica contemporâneas — especialmente aquelas ligadas a inteligências não humanas — e as revelações religiosas tradicionais. A leitura editorial aqui é que a exposição não tenta provar a existência de extraterrestres, mas sim analisar como a estrutura das histórias sobre alienígenas espelha a estrutura das divindades e das aparições milagrosas.

Ao colocar objetos de culto, como velas de oração, ao lado de parafernália de OVNIs, a artista questiona a rigidez dos sistemas de crença. A exposição sugere que tanto a fé em entidades divinas quanto a expectativa por visitas espaciais operam sob mecanismos culturais semelhantes, onde o desconhecido serve como tela para projeções humanas de esperança, medo e busca por sentido em um mundo cada vez mais secularizado.

O mecanismo de produção do mito

O filme PsyFi*, produzido pela GUMMY Films, é o motor narrativo da mostra. Com um elenco que inclui nomes como Moses Sumney, Miles Greenberg e Lucas Bravo, o filme utiliza a estética de videoclipe e a performance artística para personificar fenômenos metafísicos. A escolha do elenco não é aleatória; cada colaborador atua como uma manifestação visual de arquétipos que Wise explora ao longo da obra, como a figura do alienígena ou do anjo moderno.

A dinâmica da exposição reforça que a crença é um produto de circulação social. Ao transformar o museu em um espaço que transita entre um bastidor de filmagem e um local de culto, Wise argumenta que a nossa percepção da realidade é um constructo coletivo. A arte, nesse contexto, funciona como um espelho que reflete como a cultura popular absorve e transforma o mistério em mercadoria e mitologia.

Implicações para o mercado da arte

O trabalho de Wise exemplifica uma tendência crescente no mercado de arte contemporânea: a criação de experiências totais que extrapolam a tela ou a escultura estática. Para colecionadores e instituições, essa abordagem imersiva altera a forma como o valor é gerado, priorizando o engajamento sensorial e a narrativa transmídia. A exposição atrai um público que busca mais do que contemplação passiva, exigindo uma participação ativa na construção do significado da obra.

Além disso, o sucesso de projetos que misturam elementos de cultura pop com temas esotéricos aponta para uma mudança no perfil do público de museus. A conexão entre o design de uma loja de suvenires e a curadoria de arte de alto nível em Basel demonstra que as fronteiras entre o entretenimento e a alta cultura estão cada vez mais porosas. O desafio para os curadores é manter o rigor intelectual enquanto navegam por temas que, embora populares, exigem uma análise crítica profunda.

O futuro do desconhecido na cultura

O que permanece em aberto é como essa fusão entre ficção científica e divindade evoluirá em futuras produções artísticas. A exposição de Wise levanta questões sobre o que acontecerá quando o "desconhecido" for, em parte, desmistificado pela tecnologia ou pela exploração espacial. A arte continuará a ser o refúgio para o que não pode ser explicado, ou ela se tornará um mero comentário sobre a nossa incapacidade de lidar com a incerteza?

A mostra em Basel é um convite para observar como as narrativas sobre o não-humano continuarão a moldar a identidade cultural humana. A capacidade de Wise em transformar teorias complexas em ambientes acessíveis e visualmente provocativos sugere que o diálogo entre a ciência, a religião e a cultura pop está apenas começando a ser explorado em profundidade no circuito das artes visuais.

A exposição Extrasensory convida o espectador a refletir sobre os limites da própria crença e a origem das histórias que contamos sobre o que existe além da nossa compreensão imediata. Entre o sagrado e o extraterrestre, a artista deixa claro que a busca pelo desconhecido é, fundamentalmente, uma busca pelo reflexo da própria humanidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast