A política de tributação sobre segundas residências, historicamente restrita a centros urbanos de alto custo como Nova York, transformou-se em uma tendência fiscal mais ampla nos Estados Unidos. Governos estaduais e municipais buscam, por meio de sobretaxas, desestimular a manutenção de propriedades subutilizadas e mitigar os efeitos da valorização imobiliária que tem excluído residentes permanentes de seus próprios mercados locais.
O movimento ganha força em um cenário de pressão demográfica e econômica, onde o aumento dos preços dos imóveis, impulsionado por compradores de fora do estado, pressiona as finanças das famílias locais. Segundo reportagem do Metro Quadrado, a adoção dessas medidas varia de sobretaxas anuais sobre o valor de mercado até cobranças fixas sobre imóveis mantidos vagos por longos períodos.
O precedente de Rhode Island e a taxa Taylor Swift
Rhode Island tornou-se um caso emblemático ao implementar uma legislação que impõe encargos adicionais a residências de luxo com uso sazonal. A medida, popularmente apelidada de "taxa Taylor Swift" devido à propriedade da artista na região de Watch Hill, estabelece uma sobretaxa para imóveis avaliados acima de US$ 1 milhão que permanecem desocupados por mais de 182 dias por ano.
A lógica por trás dessa política é capturar uma parcela maior da valorização imobiliária gerada pelo mercado de veraneio para fortalecer a arrecadação estadual. Com a nova regra, a carga tributária sobre propriedades de alto padrão sofreu um incremento significativo, alterando o cálculo de viabilidade econômica para grandes investidores e proprietários que utilizam suas casas apenas esporadicamente.
O embate político em Montana
Em Montana, a questão assumiu um caráter de disputa política e jurídica. O estado, que experimentou uma valorização imobiliária acelerada durante o período pandêmico, viu o governador Greg Gianforte propor a taxação de segundas casas como estratégia para compensar a redução de impostos sobre residências de moradores permanentes.
A proposta enfrentou resistência interna, inclusive de membros do Partido Republicano, evidenciando a complexidade de equilibrar a justiça fiscal com os interesses de proprietários e investidores. A medida, que previa uma taxa fixa anual de 1,9% para casas ocupadas por menos de sete meses, permanece sob análise judicial, refletindo a tensão entre a necessidade de arrecadação e a proteção dos direitos de propriedade.
A expansão do modelo na Califórnia
Na Califórnia, o debate sobre a taxação de pied-à-terre e imóveis vagos avança para cidades como San Diego. Após tentativas anteriores em San Francisco serem derrubadas na Justiça, a nova proposta em votação na cidade prevê taxas fixas para imóveis desocupados a partir de 2027, com estimativas de arrecadação que variam entre US$ 9 milhões e US$ 20 milhões anuais.
O impacto potencial da medida em San Diego é considerado superior ao de cidades como Oakland ou Berkeley, dada a dimensão da cidade no mercado imobiliário californiano. A estratégia busca converter o estoque de imóveis subutilizados em uma fonte de receita pública, ao mesmo tempo em que sinaliza uma mudança na tolerância política em relação à especulação imobiliária em áreas urbanas densas.
Tensões e perspectivas futuras
A eficácia dessas políticas em reduzir a crise habitacional ou em apenas elevar a carga tributária permanece como uma questão aberta para gestores públicos e economistas. O sucesso dessas medidas depende não apenas da implementação legislativa, mas da resiliência jurídica contra coalizões de proprietários que contestam a legalidade das sobretaxas.
O desdobramento dessas iniciativas nos próximos anos indicará se a taxação de segundas residências se consolidará como uma ferramenta fiscal permanente no ecossistema imobiliário americano ou se enfrentará barreiras estruturais que limitarão seu alcance. O mercado imobiliário, por sua vez, deve observar como esses custos adicionais influenciarão o comportamento de investimento em regiões turísticas e de alto padrão.
A crescente fragmentação das regras tributárias entre diferentes estados sugere que o custo de manter uma propriedade de veraneio nos EUA está se tornando um fator de risco mais variável, exigindo que investidores e proprietários considerem o ambiente regulatório local como um componente central do retorno sobre o capital investido.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Metro Quadrado





