Municípios do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, iniciaram um movimento de cancelamento de festas tradicionais para redirecionar orçamentos e equipes operacionais para o enfrentamento de riscos climáticos. Cidades como Gaspar, Agrolândia, Ilhota, Luiz Alves e Rio do Oeste suspenderam eventos programados para o período entre junho e julho, atendendo a recomendações de segurança frente à previsão de um intenso fenômeno El Niño.

A medida, que reflete um cenário de cautela institucional, segue o decreto de alerta climático emitido pelo governo estadual em 18 de maio. O redirecionamento de verbas visa fortalecer ações de mitigação, como o desassoreamento de rios e a limpeza de sistemas de drenagem, em uma região historicamente vulnerável a enchentes e deslizamentos de terra.

Prioridade na resiliência

O fenômeno El Niño, com consolidação prevista a partir de junho, traz preocupações específicas para a infraestrutura catarinense. As projeções meteorológicas indicam um inverno com chuvas acima da média e verões marcados por ondas de calor intensas, o que eleva a probabilidade de eventos extremos. A estratégia das prefeituras é clara: trocar o retorno econômico imediato das festas pela redução de passivos futuros.

Em Gaspar, a decisão de cancelar a 22ª Expofeira resultou no remanejamento de R$ 1,7 milhão diretamente para obras preventivas. O movimento indica uma mudança na gestão pública local, onde o planejamento climático deixa de ser uma diretriz abstrata para se tornar uma variável central no orçamento municipal, forçando gestores a escolherem entre o calendário cultural e a integridade da infraestrutura urbana.

Dinâmicas de risco e custo

O custo de oportunidade de cancelar eventos tradicionais é alto para a economia local, que depende do turismo e do comércio gerado por essas festividades. No entanto, o risco de colapso logístico e os danos causados por desastres naturais impõem um peso desproporcional sobre as finanças públicas, que frequentemente precisam arcar com reconstruções emergenciais após as chuvas.

A decisão de municípios como Ilhota e Luiz Alves, que suspenderam festas icônicas como a Fenaca, revela uma gestão de risco baseada em evidências. Ao antecipar o impacto do El Niño, os gestores buscam evitar o desgaste político e financeiro de uma resposta reativa, preferindo investir na resiliência física antes que a crise se instale.

Desafios para stakeholders

Para o setor privado e para os reguladores, o cenário impõe a necessidade de uma colaboração mais estreita. A infraestrutura de drenagem e a gestão territorial não são responsabilidades exclusivas das prefeituras, mas exigem um alinhamento com o governo estadual e órgãos de Defesa Civil. A tensão entre manter a tradição cultural e garantir a segurança da população tende a crescer conforme os eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes.

O setor de eventos, por sua vez, enfrenta um período de incerteza, precisando adaptar seus modelos de negócio a uma realidade de constante alerta climático. A antecipação do cancelamento, embora necessária, deixa uma lacuna no calendário econômico regional que precisará ser preenchida por outras formas de apoio ou planejamento adaptativo.

Perspectivas futuras

O que permanece incerto é a capacidade de resposta das cidades caso o fenômeno supere as previsões meteorológicas atuais. O sucesso do redirecionamento de verbas será medido não apenas pela ausência de danos, mas pela eficácia das obras de infraestrutura que estão sendo financiadas agora com o capital das festas canceladas.

Observar a evolução desses municípios permitirá entender se o modelo de antecipação climática será adotado como norma ou se permanecerá como uma resposta isolada a eventos excepcionais. A adaptação ao novo regime climático exigirá, inevitavelmente, uma revisão contínua das prioridades orçamentárias e uma maior integração entre planejamento urbano e ciência do clima.

A transição para uma gestão pública mais resiliente em Santa Catarina coloca em xeque a sustentabilidade de eventos tradicionais em zonas de risco, forçando uma reavaliação sobre como as cidades podem preservar sua identidade cultural sem comprometer sua segurança física e financeira. Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney