O tombamento de um ficus centenário em Málaga, que um dia ofereceu sua sombra com a inscrição "Gracias por tu sombra", tornou-se um símbolo. Após o incidente, a árvore foi inteiramente cortada pela prefeitura, gerando protestos de moradores. Este não foi, contudo, um caso isolado. Em diversas cidades espanholas, a paisagem urbana tem visto um declínio no número de árvores, levantando um questionamento inquietante: o que está acontecendo com as árvores nas cidades da Espanha?
O Medo que Cria Raízes
A hipótese central é que eventos climáticos extremos, como a histórica nevasca Filomena, as Danas (Depressão Atmosférica de Nível Local) e ciclones explosivos, deixaram um rastro de destruição. Em Madri, a Filomena derrubou ou forçou a poda de mais de 94 mil árvores, cerca de 5,5% do total municipal. Essa visão de troncos caídos sobre carros e galhos bloqueando calçadas leva a uma inversão perceptiva: o árvore, antes símbolo de frescor e vida, passa a ser vista como uma ameaça iminente. O medo se intensifica com a associação primitiva entre árvores e incêndios, especialmente em um ano marcado por chamas intensas. A prudência, muitas vezes interpretada como a opção mais segura, leva à poda preventiva, mesmo que medidas de saneamento e manejo florestal pudessem ser alternativas.
Um Modelo Urbano que Seca
A esse receio soma-se um modelo urbanístico que, por vezes, parece hostil à vegetação. Praças com pavimentação contínua, obras que consideram as árvores como obstáculos e a manutenção como um fardo contribuem para a redução do verde. Em Madri, os dados são reveladores: entre 2019 e 2022, a cidade perdeu quase 20% de suas árvores maduras fora da Casa de Campo, com uma queda acentuada de 22% nas ruas. A justificativa oficial, frequentemente, é a segurança e a promessa de replantio, mas a realidade no terreno é a de um espaço urbano cada vez mais árido. O caso de Zaragoza, com a redução drástica de árvores na praça de San Miguel e a instalação de estruturas artificiais em seu lugar, exemplifica essa tendência. O concreto ganha espaço, e a sombra natural, um bem cada vez mais precioso, parece se tornar um luxo.
Implicações e Perguntas em Aberto
Essa gestão urbana levanta questões importantes sobre prioridades. Em Toledo, a reivindicação por reposição de árvores cortadas — muitas vezes por acidentes com veículos — tem sido constante, mas o número de exemplares em áreas residenciais diminuiu significativamente. Em A Coruña, embora a prefeitura alegue plantar mais do que corta, a remoção de árvores de grande porte, como os choupos da praça de Ourense, por motivos técnicos, gerou controvérsia. A grafiose, uma doença que afeta os olmos, também contribuiu para a perda de espécimes protegidos em jardins históricos. A reflexão que fica é sobre o equilíbrio entre a necessidade de segurança, os custos de manutenção e o valor inestimável do verde para a qualidade de vida urbana. As cidades espanholas parecem estar em um delicado, e por vezes conflituoso, processo de redefinição de sua relação com a natureza, onde a sombra de um passado arbóreo cede lugar a novas, e nem sempre bem-vindas, paisagens.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





