A promessa de prosperidade econômica que acompanha a Copa do Mundo da FIFA choca-se com uma realidade fiscal austera para as cidades-sede da edição de 2026. Enquanto a entidade máxima do futebol projeta receitas na casa dos US$ 13 bilhões — provenientes de bilheteria, patrocínios, direitos de transmissão e concessões —, os governos locais, responsáveis por viabilizar a infraestrutura, segurança e transporte, encontram-se em uma posição de vulnerabilidade financeira. A conta, que inclui desde a adaptação de estádios até a criação de zonas de fãs, recai pesadamente sobre o contribuinte, sem que haja uma contrapartida proporcional em arrecadação direta para as municipalidades.

Segundo reportagem da The Atlantic, o descompasso entre as responsabilidades assumidas pelos anfitriões e a rigidez dos contratos impostos pela FIFA tornou-se evidente com o impasse sobre o transporte público em Nova Jersey. O estado, que receberá oito partidas, incluindo a final, viu-se forçado a buscar soluções criativas, como o subsídio privado para reduzir tarifas de trens, após constatar que a entidade não arcaria com os custos de mobilidade dos torcedores. O movimento revela uma tensão crescente entre a gestão centralizada da federação e a necessidade democrática de transparência fiscal nas cidades que abrigam o evento.

O peso dos contratos de exclusividade

A estrutura de acordos firmada pela FIFA para 2026 reflete uma estratégia de maximização de lucros que ignora as particularidades orçamentárias dos entes locais. Ao contrário de edições passadas em regimes autocráticos, onde a federação exercia controle absoluto, o modelo atual exige negociações complexas em democracias descentralizadas. Contudo, os termos contratuais permanecem restritivos, proibindo, por exemplo, que comitês anfitriões formem parcerias com empresas que concorram com os patrocinadores globais da entidade. Essa limitação esvaziou o potencial de arrecadação local, impedindo que marcas regionais relevantes financiassem os custos operacionais.

O resultado é uma lista de patrocinadores locais composta majoritariamente por firmas de advocacia, imobiliárias e serviços de saúde, em vez de grandes marcas de consumo que poderiam gerar receitas expressivas. A expectativa de que os grandes parceiros da FIFA, como McDonald’s e Visa, realizassem investimentos adicionais nas cidades-sede não se materializou. Para esses conglomerados, a lógica é clara: após pagarem centenas de milhões à FIFA pelos direitos globais, não há incentivo econômico para arcar novamente com os custos de cada uma das 16 cidades que compõem o ecossistema do torneio.

Mecanismos de transferência de custo

O mecanismo de transferência de custos funciona de forma silenciosa, porém eficaz. Ao exigir perímetros de segurança amplos ao redor dos estádios, a FIFA reduz a oferta de estacionamento, uma fonte tradicional de receita para as arenas e cidades. Com a escassez de vagas, os preços disparam, mas o montante arrecadado, em muitos casos, é retido pela própria federação ou seus parceiros, enquanto o ônus de gerenciar o tráfego e fornecer transporte público alternativo permanece com as agências locais. Em Boston, por exemplo, a redução de 75% na oferta de estacionamento no Gillette Stadium forçou a autoridade de transporte a realizar investimentos milionários para viabilizar o deslocamento de torcedores.

Além disso, a proibição de outros eventos culturais nos estádios e arenas ao redor das datas dos jogos gera um custo de oportunidade considerável. Cidades que poderiam estar recebendo shows e conferências perdem receitas tributárias e de circulação econômica, pois as instalações são bloqueadas por decretos da FIFA. O impacto é sentido por governadores e prefeitos que, embora não colham os frutos financeiros do evento, tornam-se os principais responsáveis políticos caso a operação logística falhe ou a experiência do torcedor seja insatisfatória.

Tensões entre stakeholders e o setor público

As implicações futuras para cidades que desejam sediar megaeventos são claras: o modelo atual de financiamento é insustentável sem um aporte público massivo. Reguladores e gestores públicos agora enfrentam a pressão de cidadãos que questionam por que o erário deve subsidiar a operação de uma entidade que lucra bilhões. A disparidade entre o preço dos ingressos — muitas vezes proibitivos — e a necessidade de fundos públicos para custear zonas de fãs gratuitas cria um dilema político. Em Nova York, o aporte de US$ 20 milhões em dinheiro público para garantir o acesso gratuito a eventos demonstra o esforço desesperado dos gestores em manter a legitimidade pública diante de uma organização que se recusa a compartilhar seus ganhos.

No Brasil, o cenário ecoa preocupações passadas sobre o legado de grandes eventos. A experiência americana sugere que, sem uma cláusula de participação direta na receita da FIFA ou uma flexibilização das regras de patrocínio local, as cidades-sede funcionam como meros prestadores de serviço de luxo para um evento que, na prática, é um balcão de negócios fechado. O fenômeno do "crowding out", onde o turismo esportivo substitui outras formas de atividade econômica sem gerar um incremento real, parece ser a tônica da edição de 2026.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é se a pressão política exercida por governadores americanos forçará uma revisão nas práticas contratuais da FIFA para futuras edições. A resistência observada em 2026 pode servir como um precedente para que cidades-sede exijam maior transparência e participação nos lucros antes de assinar contratos de longo prazo. A observação de cidades que optaram por não participar, como Chicago e Montreal, sugere que o custo de oportunidade de sediar a Copa pode, em última análise, superar os benefícios intangíveis de visibilidade global.

O desdobramento das próximas semanas, com o início das partidas, revelará se a infraestrutura montada sob estresse será capaz de atender às demandas do público sem gerar novos rombos nos cofres municipais. A questão central não é mais sobre o sucesso do espetáculo esportivo em si, mas sobre a viabilidade econômica do modelo de negócios que sustenta a Copa do Mundo.

Com reportagem de The Atlantic

Source · The Atlantic — Ideas