A pesquisa de ganho de função — experimentos que conferem novas habilidades biológicas a microrganismos, como maior transmissibilidade — está no centro de um debate científico global sobre segurança e ética. Em entrevista ao podcast Persuasion, o professor Marc Lipsitch, da Universidade de Harvard, argumenta que, embora os defensores dessas práticas justifiquem o trabalho como uma forma de antecipar futuras pandemias, a relação entre risco e benefício é desproporcional. Segundo o especialista, a manipulação genética de vírus perigosos, como o da gripe aviária, cria ameaças que poderiam escapar de ambientes controlados, transformando o que deveria ser uma ferramenta de prevenção em uma fonte potencial de novas crises sanitárias.

O cerne da crítica de Lipsitch reside na fragilidade das justificativas científicas para tais experimentos. A ideia de que criar patógenos mais letais em laboratório permite prever a evolução natural de vírus é, segundo ele, limitada pela falta de generalização dos resultados. O que um vírus demonstra em um ambiente artificial não necessariamente se repete na natureza, tornando a prática uma roleta russa biológica cujas consequências, em caso de vazamento, seriam imprevisíveis e possivelmente devastadoras para a população global.

O dilema da segurança laboratorial

A história da virologia é marcada por um padrão recorrente de falhas humanas que levam a vazamentos acidentais. Desde o reaparecimento do H1N1, frequentemente apontado por especialistas como possivelmente ligado a um incidente de laboratório na então União Soviética, até incidentes documentados com SARS em laboratórios na Ásia, a evidência histórica sugere que o erro humano é um fator determinante na biossegurança. Lipsitch destaca que, mesmo em instalações de alta tecnologia, a falha em inativar patógenos ou a troca de amostras permanece um risco constante, impossível de ser totalmente mitigado por protocolos técnicos.

A questão ética ganha contornos mais graves quando se considera que, diferentemente de riscos assumidos voluntariamente por cientistas, um vazamento pandêmico expõe milhões de pessoas que não tiveram participação na decisão. A busca por prestígio em publicações científicas de alto impacto, como Science ou Nature, cria incentivos que podem levar pesquisadores a priorizar experimentos mais arriscados, simplesmente porque o caráter "chocante" dos resultados facilita a aceitação em periódicos de elite.

Alternativas à manipulação de risco

Em vez de criar novos patógenos, a comunidade científica poderia focar em estratégias que ofereçam maior segurança, como o estudo de proteínas individuais de vírus para compreender seus mecanismos de transmissibilidade. Lipsitch propõe uma realocação de recursos: se o objetivo é desenvolver contramedidas, por que não investir em vacinas contra patógenos que já existem e causam doenças conhecidas, em vez de especular sobre ameaças futuras por meio de experimentos perigosos?

A própria lógica de "prospecção viral" na natureza tem se mostrado pouco eficaz para a produção de vacinas. O histórico mostra que o desenvolvimento de contramedidas só ganha tração quando um surto já está em curso, especialmente em países desenvolvidos. Assim, a pesquisa de ganho de função acaba consumindo tempo e capital que poderiam ser aplicados em infraestrutura de resposta rápida, como a tecnologia de vacinas de mRNA, que permite adaptações velozes diante de novas ameaças.

O cenário regulatório e a desconfiança

O ambiente regulatório nos Estados Unidos tem oscilado entre tentativas de controle rigoroso e interferências políticas que, por vezes, prejudicam pesquisas legítimas. Ordens executivas recentes tentaram estabelecer marcos para a análise de riscos, mas a implementação falha muitas vezes ao confundir estudos de baixo risco com práticas perigosas. Esse cenário é agravado pela crescente polarização política, que tem minado a confiança pública em instituições de saúde.

Lipsitch alerta que o maior risco para a biosegurança atual não é apenas o vazamento de um vírus, mas a erosão da confiança nas vacinas. Ao atacar a credibilidade do sistema de saúde, agentes políticos facilitam o trabalho de qualquer adversário que deseje explorar a vulnerabilidade biológica da população. A reforma necessária, portanto, exige um equilíbrio entre a transparência científica e o rigor na vigilância de laboratórios, sem destruir as bases da saúde pública.

Perspectivas e incertezas

O debate sobre a origem da COVID-19 permanece sem uma conclusão definitiva, com a comunidade científica dividida entre a hipótese de origem zoonótica e a de vazamento acidental. Essa incerteza, contudo, é o que deveria pautar a cautela daqui em diante. A ausência de provas não é prova de ausência de risco, e a ciência deve ser capaz de lidar com a possibilidade de que suas próprias práticas possam ter consequências globais indesejadas.

O desafio para os próximos anos será estabelecer um consenso internacional que desestimule as formas mais perigosas de pesquisa de ganho de função sem sufocar a inovação necessária. O que permanece em aberto é se os governos conseguirão alinhar incentivos para que a segurança da biosfera seja priorizada acima da ambição individual de pesquisadores e da busca por publicações de alto impacto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion