A ciência, frequentemente percebida como um domínio de sobriedade e rigor, tem um lado B. Um novo estudo publicado no periódico PLoS ONE revela que a banda mais referenciada na literatura científica é, de longe, The Beatles, com mais de 3.200 alusões a suas músicas e letras em artigos acadêmicos.

O levantamento, reportado pelo site Ars Technica, cataloga um fenômeno que vai além da simples citação, mergulhando em trocadilhos criativos que conectam o universo pop à fronteira do conhecimento. A leitura é que, por trás da linguagem técnica e das metodologias estritas, os pesquisadores buscam humanizar seu trabalho e se conectar através de um repertório cultural compartilhado.

Here comes the SU(N)

A criatividade dos cientistas transparece em títulos que adaptam clássicos da banda de Liverpool ao jargão científico. Um artigo sobre as sequelas da Covid, por exemplo, foi batizado de "The lung and winding road" ("O pulmão e a estrada sinuosa", em tradução livre), um trocadilho com a canção "The Long and Winding Road". Outro, sobre computação quântica e grupos matemáticos, virou "Here comes the SU(N)", uma referência a "Here Comes the Sun". Gabriel Budel, coautor do estudo, classificou algumas das referências como "genuinamente brilhantes".

O hábito não é exclusivo dos fãs dos Beatles. Em 2014, veio a público que cientistas do Instituto Karolinska, na Suécia, inseriam letras de Bob Dylan em seus artigos como parte de uma aposta de longa data. O caso começou em 1997 com um artigo intitulado "Nitric Oxide and inflammation: The answer is blowing in the wind". A descoberta gerou um estudo próprio, em 2015, sobre a presença de Dylan na literatura biomédica.

O que esses episódios sugerem é que a cultura pop não é um mero ornamento, mas uma ferramenta de comunicação e identidade, mesmo nos círculos mais especializados. Seja com Dylan ou com os Beatles, a ciência demonstra que, entre uma hipótese e outra, sempre há espaço para um refrão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Ars Technica