A Copa do Mundo de 2026, marcada para ocorrer nos Estados Unidos, México e Canadá, enfrenta um desafio climático sem precedentes. Uma carta aberta assinada por 20 especialistas em saúde, clima e performance esportiva, oriundos do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Austrália, exige que a Fifa reavalie o calendário e os protocolos de segurança do torneio. Segundo o grupo, as condições térmicas esperadas para o verão norte-americano representam um risco elevado para jogadores e torcedores.
O alerta baseia-se em análises do World Weather Attribution (WWA), que indicam que a probabilidade de eventos climáticos extremos na região quase dobrou desde a Copa de 1994. A preocupação é que o torneio ocorra em um período de calor intenso, com temperaturas que superam limites de segurança para a prática de esportes de alta intensidade, forçando a entidade a considerar mudanças estruturais urgentes.
O impacto do estresse térmico
A análise técnica utiliza o Índice de Temperatura de Globo Úmido (WBGT), uma métrica que integra temperatura, umidade, vento e radiação solar. Diferente do termômetro convencional, o WBGT mede o estresse térmico real sobre o corpo humano, sendo crucial em atividades físicas. Em condições de alta umidade, o mecanismo de resfriamento natural do corpo, a evaporação do suor, é inibido, elevando drasticamente o risco de exaustão térmica.
Os dados projetam que cerca de 25% das 104 partidas do torneio devem ocorrer em condições que superam o limiar de 26°C WBGT, patamar de alerta para o sindicato global dos jogadores (Fifpro). Em casos mais críticos, o índice pode ultrapassar 28°C, nível que, segundo a ciência, deveria resultar no adiamento dos jogos para evitar riscos graves à saúde.
Divergência entre ciência e protocolos
Existe uma lacuna clara entre as recomendações científicas e as políticas atuais da Fifa. Enquanto especialistas defendem pausas de hidratação mais longas e limites de temperatura mais baixos, a entidade mantém critérios que, segundo os signatários da carta, são insuficientes. A divergência reside no fato de a Fifa adotar um modelo de mitigação que, na visão dos críticos, subestima a velocidade com que o superaquecimento pode comprometer um atleta.
Além disso, a infraestrutura dos estádios é um fator de tensão. Mais de um terço das partidas de maior risco ocorrerão em arenas sem ar-condicionado, incluindo cidades como Miami e Nova York. A tentativa da Fifa de priorizar estádios cobertos e ajustar horários de início é vista como insuficiente diante da magnitude da crise climática atual.
Implicações para o esporte global
A pressão sobre a Fifa reflete uma mudança na forma como grandes eventos esportivos devem ser planejados. O precedente da Copa do Catar em 2022, que foi deslocada para o final do ano para evitar o calor extremo, estabeleceu uma nova referência. No entanto, a logística de 2026, com 16 cidades-sede, torna a flexibilidade de calendário um desafio complexo para a organização.
Para reguladores e stakeholders, o debate levanta questões sobre a responsabilidade das entidades esportivas na proteção do bem-estar dos atletas. A resistência da Fifa em adotar os padrões científicos sugeridos pode gerar um desgaste reputacional e, potencialmente, tensões contratuais caso incidentes de saúde ocorram durante o torneio.
O futuro das competições
A incerteza sobre como a entidade responderá às exigências permanece. O monitoramento em tempo real prometido pela Fifa será testado sob condições meteorológicas cada vez mais instáveis. A capacidade da organização em equilibrar as demandas comerciais do torneio com a segurança física dos envolvidos será o foco principal de observação nas próximas edições da Copa.
O debate sobre o calendário não é apenas uma questão de logística, mas uma adaptação necessária diante de um novo cenário climático. A forma como a Fifa gerenciará essa pressão poderá ditar o futuro de outros eventos esportivos globais realizados em climas tropicais ou durante verões extremos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





