Cinquenta anos depois de sua fundação, em 1976, a Apple vale mais de três trilhões de dólares e habita o centro da vida digital de mais de um bilhão de pessoas. A pergunta que David Pogue — repórter de tecnologia do CBS Sunday Morning e autor de dezenas de livros sobre o setor — tenta responder em Apple: The First 50 Years não é como a empresa chegou lá, mas por que entendemos tão mal o caminho. Baseado em mais de 150 entrevistas e em acesso raro aos arquivos internos da companhia, o livro propõe uma leitura que desfaz mitos sem romantismo e sem iconoclastia fácil.

A Narrativa que a Própria Apple Ajudou a Construir

A história canônica da Apple é, em grande medida, uma história de Steve Jobs: a garagem em Los Altos, a demissão humilhante em 1985, o retorno triunfal em 1997, o iPhone em 2007. É uma narrativa limpa demais para ser completa. Pogue, que cobriu a empresa por décadas, aponta que essa versão apaga experimentos fracassados, apostas estratégicas equivocadas e períodos inteiros em que a Apple esteve à beira da insolvência — incluindo o momento, em 1997, em que a Microsoft de Bill Gates injetou 150 milhões de dólares para manter o concorrente vivo, em parte para evitar acusações de monopólio.

O problema de narrativas fundacionais tão bem polidas é que elas distorcem o aprendizado. Quando o fracasso do Apple Newton, o PDA lançado em 1993 e descontinuado em 1998, é lembrado apenas como curiosidade histórica, perde-se a análise de por que a empresa levou quase uma década para entender computação móvel — e o que mudou internamente para que o iPhone de 2007 fosse diferente. A pesquisa de Pogue, ao recuperar vozes de engenheiros e executivos que raramente aparecem nas biografias autorizadas, tenta preencher esse vácuo.

Comparado a trabalhos anteriores sobre a empresa — a biografia de Walter Isaacson, de 2011, ou Becoming Steve Jobs, de Brent Schlender e Rick Tetzeli, de 2015 —, o livro de Pogue tem a vantagem do distanciamento temporal e de cobrir a era Tim Cook com a mesma profundidade que a era Jobs. Isso importa porque a transformação da Apple entre 2011 e 2026 é, em muitos aspectos, mais difícil de explicar do que sua ascensão original.

Tim Cook e a Empresa que Jobs Não Construiu

A Apple de Tim Cook é uma empresa diferente da que Jobs deixou — e não apenas em escala. Sob Jobs, a companhia era obcecada com categorias de produto: o Mac, o iPod, o iPhone, o iPad. Cada lançamento era uma declaração de que uma categoria inteira precisava ser reinventada. Sob Cook, a Apple tornou-se uma empresa de serviços disfarçada de fabricante de hardware. A App Store, o Apple Music, o iCloud, o Apple TV+, o Apple Pay e o Apple Intelligence representam hoje uma fatia crescente da receita — e uma camada de dependência do usuário que vai muito além do dispositivo físico.

Essa transição tem paralelos históricos relevantes. A IBM dos anos 1990 fez movimento semelhante ao migrar de hardware para serviços e consultoria sob Lou Gerstner, salvando a empresa da irrelevância. A diferença é que a Apple manteve o hardware como vetor de entrada e como símbolo de identidade cultural — o iPhone ainda define o que a empresa é para a maioria das pessoas, mesmo que os serviços respondam por margens maiores. Pogue, ao examinar a cultura de engenharia e design que atravessa as cinco décadas, tenta identificar o que permanece constante nessa transformação.

O evento no 92nd Street Y, em Nova York, onde Pogue conversou com Lee Cowan em 16 de abril de 2026, funcionou como lançamento público do argumento central do livro: que a Apple não é apenas uma empresa de tecnologia, mas uma infraestrutura cognitiva e comportamental que reorganizou hábitos, atenção e formas de sociabilidade em escala global. É uma afirmação ambiciosa — e, dependendo do que os arquivos internos revelam, pode ser a contribuição mais duradoura do trabalho.

O que permanece em aberto é a questão mais difícil: se a Apple é de fato uma infraestrutura para a vida moderna, quem a regula, com que critérios, e o que acontece quando seus interesses divergem dos de seus usuários. Pogue é um jornalista de tecnologia, não um crítico de plataformas. Seu livro provavelmente ilumina melhor o interior da empresa do que suas externalidades. Essa lacuna, por si só, já diz algo sobre o estado do jornalismo de tecnologia em 2026.

Fonte · The Frontier | Brands