O Citi tem registrado na América Latina um crescimento acima da média global do banco, avançando em dois dígitos, e projeta repetir o mesmo desempenho até 2026. Segundo Ernesto Torres Cantú, CEO da operação internacional do Citi, o avanço tem sido impulsionado tanto pela expansão da receita com clientes na região quanto por um ganho de mercado significativo.

A estratégia central do banco, conforme detalhado por Cantú em entrevista à Bloomberg Línea, é posicionar-se como o principal parceiro financeiro para empresas com necessidades transfronteiriças. "Quanto mais global é uma empresa, mais valor conseguimos entregar a ela", afirmou o executivo, destacando as oportunidades tanto para empresas globais que buscam expandir seus negócios na América Latina quanto para companhias latino-americanas, especialmente brasileiras, que almejam uma projeção internacional maior.

Ganho de Mercado e Foco Estratégico

Um dos indicadores mais claros desse avanço estratégico é a performance do Citi no segmento de banco de investimento na América Latina. O banco encerrou o primeiro semestre de 2026 na liderança do ranking regional, com uma participação de mercado de 13,8%. Esse resultado representa um salto expressivo em relação aos 8,9% do mesmo período do ano anterior e aos 9,7% registrados ao longo de todo o ano de 2025. "É essa combinação — atividade dos clientes mais ganho de mercado — que explica esses resultados", explicou Cantú, ressaltando a consolidação da posição do banco.

A expansão física também acompanha essa estratégia. Com cerca de 12 mil funcionários na América Latina, o Citi inaugurou recentemente um novo escritório na Guiana, elevando para 20 o número de países na região com presença física. A Guiana tem se destacado pelo intenso fluxo de investimentos, impulsionado pelas descobertas de petróleo, e pela quadruplicação de seu PIB entre 2020 e 2025. A presença do Citi na Guiana exemplifica a estratégia de atender clientes globais que operam na região.

Reestruturação Global e Desinvestimento no Varejo

O crescimento na América Latina está intrinsecamente ligado à reestruturação global que o Citi vem promovendo, com a saída estratégica de operações de varejo em diversos mercados. Esse processo já foi concluído em 13 países, incluindo o Brasil em 2016. Mais recentemente, o banco anunciou o desinvestimento no Banamex, no México. O Citi já alienou 49% do banco de varejo mexicano e planeja vender uma fatia adicional de 2% no início de 2027, seguida por uma oferta pública inicial (IPO) para alienar o restante da participação, dependendo das condições de mercado.

A lógica por trás dessa desmobilização do varejo é a diferença de escala entre os modelos de negócio. Enquanto o varejo é intrinsecamente local e depende de grande escala, o negócio institucional e de investimento se beneficia da rede global do Citi. Ao se desfazer de operações de varejo, o banco libera capital, tempo e foco gerencial para concentrar esforços em seus segmentos mais fortes, que se beneficiam da sua presença internacional. "Em praticamente todos os países em que vendemos o varejo, incluindo o Brasil, hoje somos maiores do que éramos quando ainda tínhamos essa operação", destacou Cantú.

Perspectivas para o Banco de Investimento e o Cenário Regional

Para o segmento de banco de investimento na América Latina, a expectativa é de crescimento estável no mercado de dívida. Já a dinâmica entre mercado de capitais acionário e fusões e aquisições (M&A) deve variar de acordo com as necessidades específicas de cada cliente. Em um cenário global de reacomodação, as empresas estão agindo rapidamente, seja por meio de aquisições, emissões de ações ou outros mecanismos, o que deve manter a atividade forte.

O Brasil, em particular, é considerado um "país-âncora" para as operações internacionais do Citi, figurando entre os cinco maiores mercados globais do banco fora dos EUA desde a pandemia. A expectativa é de crescimento contínuo, atendendo tanto empresas brasileiras com ambições globais quanto multinacionais com operações no Brasil. A reacomodação das cadeias de suprimentos globais, o cenário geopolítico e tarifas de importação favoráveis dos EUA para países latino-americanos posicionam a região de forma vantajosa. O Citi vê essa dinâmica impulsionando o crescimento em países como Peru, Colômbia e Argentina, além do Brasil.

O Futuro da Atuação do Citi na Região

O futuro do Citi na América Latina parece focado em consolidar sua posição como um player indispensável para empresas que buscam navegar no complexo cenário econômico global. A estratégia de desinvestimento no varejo, embora possa parecer um passo atrás em termos de presença territorial, é, na verdade, um movimento calculado para otimizar recursos e fortalecer áreas de maior potencial de retorno e sinergia com sua rede global. A aposta em clientes corporativos e de investimento, com foco em transações transfronteiriças, alinha o banco com as tendências macroeconômicas e de reconfiguração de cadeias de valor globais.

O banco agora se volta para um futuro onde a profundidade de sua rede e a expertise em serviços corporativos e de investimento serão os principais diferenciais. A capacidade de oferecer soluções integradas para empresas que operam em múltiplos mercados latino-americanos e que buscam expandir sua atuação globalmente será o termômetro do sucesso contínuo do Citi na região. A forma como o banco adaptará seus serviços às nuances de cada mercado, ao mesmo tempo em que mantém uma visão unificada para seus clientes globais, definirá sua trajetória nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea